| Edição: 1ª |
| Publicação: 16 de outubro de 2020 |
| Idioma: Português |
| Páginas: 96 |
| Peso: 110 g |
| Dimensões: 20.8 x 13.8 x 0.6 cm |
| Formato: Capa comum |
| ISBN-10: 6555320214 |
| ISBN-13: 9786555320213 |
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Nesta obra publicada em 1973, Clarice Lispector atinge o ápice de sua radicalidade estética, abandonando as estruturas narrativas convencionais em favor de um fluxo de consciência que ela denomina como “it” ou o “instante-já”. Água viva não é um romance no sentido tradicional, mas uma longa meditação lírica dirigida a um “tu” ausente, no qual uma narradora — que se identifica como pintora — tenta capturar a essência da vida através da palavra, reconhecendo a insuficiência da linguagem para expressar o que é puramente orgânico e inefável. A autora utiliza a metáfora da água-viva para representar essa matéria viva, viscosa e transparente que escapa entre os dedos de quem tenta defini-la, transformando o ato de escrever em um ato de autodescoberta e de confronto com o silêncio.
A escrita de Clarice nesta fase é marcada por uma fragmentação deliberada e uma sintaxe que desafia a lógica, buscando uma aproximação com as artes plásticas e a música. O texto detalha a percepção sensorial da existência: o perfume das flores, o movimento dos bichos e a pulsação do sangue são descritos com uma crueza que beira a mística. A análise foca na tentativa de “anotar as vibrações do átomo”, onde cada frase é uma tentativa de fixar o agora antes que ele se torne passado. Lispector analisa a própria identidade como algo fluido e inacabado, recusando-se a ser limitada por nomes ou papéis sociais, preferindo a liberdade aterradora de ser apenas uma “coisa viva” que respira e sente.
A obra aborda a relação entre o criador e a criação, explorando como a arte é, simultaneamente, uma forma de revelação e de ocultamento. Lispector investiga a solidão fundamental do indivíduo, sugerindo que, no cerne da existência, há um núcleo impessoal e selvagem que não pode ser comunicado, apenas experienciado. A análise do texto destaca a dualidade entre a “vida-morte”, onde o nascimento e a decomposição são faces da mesma moeda orgânica. A figura da narradora-pintora serve como um filtro para essa realidade bruta; ela não quer retratar objetos, mas a “energia pura” que emana deles, transformando o livro em um objeto de meditação onde o leitor é convidado a mergulhar em uma subjetividade radical.
A linguagem da narrativa é erudita, mas despida de ornamentos supérfluos, priorizando a força do substantivo e do verbo no presente. A autora analisa a “alegria de viver” como uma forma de agressividade e coragem, pois exige o reconhecimento da própria finitude. A reflexão estende-se para a ideia de que a verdade é um choque elétrico que só pode ser sentido na imediação do ser. O desfecho da obra — se é que se pode falar em fim para um ciclo contínuo — é uma reafirmação da existência como um ato de fé sem objeto, onde o que importa não é o que se diz, mas o “hálito” que sustenta a fala. É um estudo sobre o tempo, a percepção e a busca incessante pela harmonia entre o pensamento e a matéria.
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