| Publicação: 19 de setembro de 2021 |
| Idioma: Português |
| Páginas: 64 |
| Peso: 0.120 kg |
| Dimensões: 15.5 x 0.5 x 22.6 cm |
| Formato: Capa comum |
| ISBN-10: 6555526270 |
| ISBN-13: 9786555526271 |
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Comprar LivroNesta edição da Principis, que reúne a produção dramática de Fernando Pessoa, o leitor é conduzido ao cerne do "teatro estático", uma proposta estética onde a ação externa é sacrificada em favor da densidade reflexiva e da exploração do mundo interior. O texto principal, O marinheiro, escrito em 1913, é a obra-prima do drama simbolista português. Nele, três donzelas velam um corpo em um castelo isolado, atravessando a noite com diálogos que diluem a fronteira entre a realidade, o sonho e a memória. Pessoa utiliza a palavra como o único evento possível, transformando a cena em um espaço de pura abstração metafísica. A narrativa dramática não busca o conflito de vontades, mas a revelação de uma angústia existencial profunda, onde a própria existência das personagens é posta em dúvida pela força do que elas imaginam ou recordam.
A escrita de Pessoa nestes textos é marcada por um lirismo hermético e uma precisão vocabular que evoca o mistério. O autor analisa a fragmentação do eu, tema central de toda a sua obra, transpondo-a para o diálogo dramático. Em O marinheiro, a figura do náufrago na ilha deserta, que as veladoras evocam, torna-se uma metáfora para a consciência isolada que cria mundos para evitar o vazio. A análise detalha como o tempo é suspenso, e o espaço físico do castelo torna-se uma projeção da mente. A Principis apresenta estes textos com uma clareza editorial que permite ao leitor perceber a unidade de pensamento de Pessoa, mesmo em suas incursões menos conhecidas pela dramaturgia, revelando um autor que via no palco não um lugar de ação, mas um laboratório de ontologia.
A obra aborda a incapacidade humana de distinguir o que é vivido do que é sonhado, um dos pilares do pensamento pessoano. Fernando Pessoa investiga a ideia de que a vida é uma "interseção" de planos, onde o tédio e a vigília são as únicas certezas. Nos outros textos dramáticos que compõem o volume, como os fragmentos de Fausto ou Salomé, observa-se a luta do indivíduo contra o conhecimento absoluto e a sedução do nada. A análise do texto destaca o "drama em gente", onde as vozes no palco funcionam como heterônimos em conflito dialético. O autor sugere que a verdade não é algo a ser encontrado, mas uma construção precária feita de palavras e sombras, fadada a desaparecer com a luz do dia.
A linguagem destes textos é erudita e carregada de simbolismo, exigindo uma leitura atenta aos silêncios e às pausas. Pessoa analisa a condição humana como um estado de espera perpétua por algo que não se sabe se é real ou apenas uma invenção da saudade. A reflexão estende-se para a própria natureza da arte: o teatro, para Pessoa, é o lugar onde a mentira é confessada como a única forma de suportar a verdade. O desfecho de O marinheiro, com o raiar do sol e a dúvida sobre quem realmente sonhou quem, oferece uma das mais potentes imagens da literatura moderna sobre a vacuidade do ser. É um estudo sobre o silêncio, o mistério da identidade e a beleza trágica de sermos, simultaneamente, o sonhador e o sonho.