Canção para ninar menino grande - Evaristo, Conceição

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Edição:
Publicação: 16 de novembro de 2022
Idioma: Português
Páginas: 136
Peso: 0.180 kg
Dimensões: 13.5 x 0.8 x 20.5 cm
Formato: Capa comum
ISBN-10: 6556020885
ISBN-13: 9786556020884

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Canção para ninar menino grande

“Canção para ninar menino grande” – Conceição Evaristo

“Canção para ninar menino grande” é o quinto romance da aclamada escritora mineira Conceição Evaristo, publicado originalmente em 2018. A obra ganhou destaque no cenário literário nacional ao ser adicionada à lista de leituras obrigatórias da Fuvest 2026. Trata-se de um mosaico afetuoso e dolorido de experiências negras, que propõe uma profunda reflexão sobre gênero, raça e relações afetivas na sociedade brasileira.

A trama e o protagonista

A história é centrada em Fio Jasmim, um homem negro de beleza exuberante e galanteador, que trabalha como ajudante de maquinista de trem. A narrativa acompanha Fio, já casado com Pérola Maria há 24 anos, em suas viagens de trabalho, onde ele se relaciona com diversas mulheres, traindo sua esposa regularmente. Fio é um “marinheiro dos trilhos” que, em cada cidade (“porto”) onde o trem para, deixa a marca de sua virilidade, corações partidos e, em muitos casos, filhos.

A narrativa é não linear, começando quando Fio Jasmim tem quarenta e quatro anos e voltando à sua juventude para narrar seus encontros. A história acontece em um tempo passado, possivelmente por volta dos anos 1960, no auge das marias-fumaças, quando o transporte de pessoas por ferrovias estava próximo do fim.

Temas centrais: Trauma, masculinidade e solidão

O livro se aprofunda na construção da masculinidade negra e suas contradições. O comportamento sedutor e inconsequente de Fio Jasmim é explicado por um trauma de infância: o fato de ter tido o papel de Príncipe Negro negado em uma peça escolar por ser negro. Esse racismo estrutural fez com que ele buscasse incessantemente a validação através da sedução e da atuação viril, colecionando mulheres para se sentir um “príncipe”.

A obra também aborda temas como:

Machismo estrutural: A narrativa expõe a irresponsabilidade masculina com as mulheres e consigo mesmos, a masculinidade tóxica, e a centralização do homem na vida da mulher.

Racismo e identidade: A história toca no racismo que molda o trauma de Fio e em questões sociais, como o sobrenome “Paranhos” conservado por uma das amantes, herança do período da escravatura.

Solidão afetiva: O livro discute a solidão feminina e masculina, mostrando a dor e o vazio que conectam os personagens. O trauma de Fio é desvendado com a ajuda de Eleonora Distinta de Sá, uma mulher lésbica que lhe oferece apenas amizade, e não desejo carnal, permitindo que ele se abra sobre suas dores da infância.

O ponto de vista feminino

Apesar de Fio Jasmim ser a figura central, o livro é, essencialmente, sobre as mulheres. Elas são as verdadeiras protagonistas, com seus próprios sonhos, angústias e projetos.

A narrativa se apoia no conceito de Escrevivência criado por Conceição Evaristo, que “embaralha vivência e escrita”. A história é contada por uma narradora anônima que nunca conheceu Fio Jasmim, mas ouviu as histórias dele através do círculo de mulheres que ele amou, suas “amigas confidentes”.

A obra destaca a sororidade que se forma entre essas mulheres (Juventina, Aurora, Antonieta, Dolores, Dalva, entre outras), que criam uma rede afetiva para compartilhar a dor e se opor à solidão e ao abandono.

Debate e recepção crítica

A recepção do livro revela um debate intenso entre os leitores:

Arcos de redenção vs. investigação: Alguns leitores sentem que o livro constrói um “arco de redenção” para Fio Jasmim, o “menino grande”, e expressam cansaço pelo “eterno acolhimento” de homens irresponsáveis, questionando o final onde o trauma de Fio é explicado.

Crítica e conscientização: Outros, no entanto, argumentam que o livro não romantiza nem legitima o comportamento de Fio. Pelo contrário, a obra é uma investigação necessária das construções culturais que tornam esses padrões masculinos destrutivos e comuns, e serve como um espelho para que os homens enfrentem seus próprios fantasmas.

Em síntese, Conceição Evaristo usa a figura de Fio Jasmim para tecer uma complexa tapeçaria de dor e desejo da negritude, reafirmando sua maestria em conduzir o leitor “do trauma histórico à lucidez, à paixão, ao afeto”.

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