Não fossem as sílabas do sábado - Carrara, Mariana Salomão

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Edição:
Publicação: 7 de junho de 2022
Idioma: Português
Páginas: 168
Peso: 0.210 kg
Dimensões: 13.5 x 1.1 x 20.8 cm
Formato: Capa comum
ISBN-10: 655692282X
ISBN-13: 9786556922829

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Não fossem as sílabas do sábado – Mariana Salomão Carrara

Não fossem as sílabas do sábado é um romance de perdas e tessituras, em que Mariana Salomão Carrara convoca o acaso como força narrativa e o luto como língua. A história nasce de um acidente absurdo — a morte de André — que redesenha os contornos de uma casa e convoca mulheres ao centro da cena: Ana, a arquiteta que continua, já gestando a filha órfã; Francisca, a babá cujo cuidado se estende em tentáculos de afeto e intervenção; Madalena, a vizinha viúva do outro homem implicado na tragédia. No intervalo entre uma respiração e outra, a autora faz do sábado um tempo suspenso, onde as palavras pesam, deslizam, às vezes falham, e nesse falhar revelam sua verdade. A narrativa acompanha as cicatrizes que se procuram, o abrigo que se recusa, o modo como a dor se organiza numa casa e como o amor, mesmo estilhaçado, persiste em seus gestos mínimos.

A prosa de Carrara é de uma precisão cortante: enxuta, amante das pausas, atenta às superfícies onde a emoção se decalca. Sem recorrer ao estrondo, o texto trabalha com uma música baixa, que incide sobre o silêncio, sobre aquilo que quase se diz e não se diz — um território em que cada frase guarda uma temperatura inequívoca. A autora compõe suas personagens com rara economia e profundidade, evitando o melodrama e preferindo a fricção entre cuidado e invasão, entre solidariedade e insuficiência, entre o desejo de ordem e a matéria desobediente do luto. Há no romance uma arquitetura emocional que se constrói por justaposição de cenas: portas semiabertas, cozinhas em que o cotidiano tenta retomar seu pulso, a gravidez que impõe um tempo futuro e, ao mesmo tempo, torna o presente um lugar de vigília.

O sábado, no título, converte-se em figura de linguagem e horizonte: é o dia que se dobra sobre o tempo, e nele a linguagem busca um ritmo novo para o que não sabe nomear. Carrara tensiona o modo como a tragédia imanta os afetos e satura os espaços, e faz do encontro entre Ana, Francisca e Madalena uma cartografia de cuidados possíveis, falhos, insistentes. A escrita desloca o luto do campo da retórica para o campo do gesto — uma xícara pousada, um conselho que atravessa, uma mão que segura e não sabe, contudo, o que sustenta. Sem qualquer didatismo, o romance investiga as zonas onde a ética do cuidado colide com a necessidade de preservar a própria intimidade, e revela que do escombro nasce, às vezes, uma gramática nova do convívio.

Ao fim, permanece a impressão de um livro que se inscreve no corpo do leitor pela via do ritmo e da contenção. Não há espetáculo na dor que o romance observa; há, sim, o cimento fino da linguagem a tentar manter de pé uma casa que já não é a mesma. Carrara confirma sua habilidade em transformar o banal em matéria incandescente, e oferece uma narrativa que, ao tocar o que é frágil, recupera a dignidade discreta dos cuidados que se fazem sem alarde.

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