| Edição: 1ª |
| Publicação: 8 de junho de 2023 |
| Idioma: Português |
| Páginas: 136 |
| Peso: 0.200 kg |
| Dimensões: 13.5 x 1.2 x 20.8 cm |
| Formato: Capa comum |
| ISBN-10: 6556924512 |
| ISBN-13: 9786556924519 |
Quer comprar este livro?
Comprar LivroA bordo da Nave Seis mil, a milhões de quilômetros da Terra, a vida não se define pelo pulso sanguíneo, mas pela produtividade. A dinamarquesa Olga Ravn constrói esta narrativa por meio de fragmentos: uma sucessão de depoimentos curtos e clínicos prestados a uma comissão de inquérito invisível. Os declarantes são humanos e humanoides — clones criados para o trabalho — que convivem em um ambiente estéril, orbitando o planeta Nova Descoberta. O equilíbrio dessa microssociedade espacial começa a ruir quando objetos estranhos e orgânicos, coletados na superfície do planeta, são trazidos para dentro da nave. Esses artefatos despertam sensações esquecidas: um cheiro de grama úmida, o calor da pele, a saudade de um mundo que os humanos perderam e que os humanoides nunca conheceram, mas que agora desejam com uma fome metafísica.
A escrita de Ravn é seca, quase gélida, e é justamente nessa economia que reside sua força. Ela não nos entrega uma ópera espacial grandiosa, mas uma autópsia da alma sob o capitalismo de vigilância. À medida que os depoimentos avançam, a distinção entre carne e circuito se torna irrelevante diante da dor da existência. Os funcionários começam a questionar o sentido de suas funções repetitivas e a natureza de seus próprios afetos. Seria o amor uma falha de programação ou o último reduto da humanidade? A autora nos conduz por um corredor claustrofóbico de reflexões sobre o que significa ser "utilizável", transformando a ficção científica em um espelho desconcertante das nossas próprias jornadas corporativas contemporâneas.
O coração da obra bate na tensão entre o objeto e o sujeito. Os estranhos itens trazidos de Nova Descoberta funcionam como catalisadores de uma crise de identidade coletiva. Para os humanos, eles são lembranças dolorosas de uma Terra devastada; para os humanoides, são promessas de uma subjetividade que lhes foi negada. A nave, que deveria ser um local de eficiência absoluta, torna-se um palco de melancolia e pequenas insurgências sensoriais. Ravn explora com maestria a ideia de que a consciência é, acima de tudo, a capacidade de sentir falta de algo. Quando os funcionários param de trabalhar para simplesmente "serem" diante dos objetos, eles cometem o crime supremo contra a lógica da missão.
O livro flerta com o horror filosófico ao sugerir que a imortalidade dos clones é uma punição, uma condenação ao trabalho eterno sem o alento do fim. A personalidade da prosa de Ravn brilha ao evitar respostas fáceis; ela prefere deixar o leitor flutuando no vácuo das incertezas dos personagens. A burocracia do inquérito tenta classificar as emoções como "erros operacionais", mas o que emerge é um clamor pela dignidade do erro e pelo direito à finitude. No fim das contas, a obra é um manifesto poético e estranho sobre como a beleza e o desejo são as únicas forças capazes de sabotar as engrenagens de um sistema que nos quer apenas como funções, nunca como seres.