| Edição: 1ª |
| Publicação: 10 de janeiro de 2025 |
| Idioma: Português |
| Páginas: 144 |
| Peso: 0.200 kg |
| Dimensões: 13.5 x 0.9 x 20.8 cm |
| Formato: Capa comum |
| ISBN-10: 6556927562 |
| ISBN-13: 9786556927565 |
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Comprar LivroNesta obra de estranhamento contínuo, a escritora japonesa Hiroko Oyamada constrói uma narrativa que se situa na intersecção entre o realismo cotidiano e o surrealismo burocrático. A trama acompanha três personagens distintos — Yoshiko, Ushiyama e Furufue — admitidos em uma gigantesca e onipresente fábrica. O complexo industrial não é meramente um local de trabalho, mas uma entidade geográfica e existencial que desafia as leis da lógica espacial, expandindo-se por quilômetros e contendo ecossistemas próprios, refeitórios infindáveis e uma fauna peculiar. A contratação desses indivíduos para tarefas cujos propósitos lhes escapam completamente — como a revisão de documentos que serão destruídos ou o estudo de musgos em telhados — serve como o motor para uma reflexão profunda sobre o esvaziamento do sentido na labuta contemporânea.
A prosa de Oyamada, marcada por uma precisão cirúrgica e uma economia de adornos, captura com maestria a erosão da percepção temporal. À medida que os personagens se aprofundam na rotina da fábrica, as fronteiras entre os dias, as estações e até mesmo entre as memórias pessoais começam a desmoronar. O trabalho, despido de qualquer teleologia ou resultado tangível, torna-se uma forma de asfixia. A autora utiliza o gigantismo da fábrica como uma metáfora para o capitalismo tardio, onde o indivíduo é reduzido a uma engrenagem funcional que, paradoxalmente, não compreende o mecanismo do qual faz parte. A sensação de inutilidade produtiva gera um tédio que, longe de ser passivo, atua como uma força corrosiva sobre a identidade dos protagonistas.
Um dos aspectos mais fascinantes de A fábrica é a introdução de elementos que flertam com o absurdo, como a presença das "garças-negras" e dos "coelhos-comedores-de-lavagem", criaturas que habitam os terrenos da empresa e que parecem ter evoluído em simbiose com a poluição e o concreto. Essa natureza deformada reflete a artificialidade da vida dos funcionários, cujos laços sociais e familiares são gradualmente substituídos pela fidelidade ao crachá. Oyamada não recorre a clichês distópicos convencionais; o horror de sua narrativa é silencioso, manifestando-se na aceitação dócil do absurdo e na resignação diante de uma autoridade invisível e inalcançável.
O livro explora a alienação não como um evento traumático súbito, mas como um processo de sedimentação. A repetição exaustiva de gestos sem valor e a submissão a uma hierarquia nebulosa resultam em uma espécie de mutação psíquica. Ao final, a fábrica deixa de ser apenas o cenário para se tornar a própria realidade dos personagens, sugerindo que, na sociedade moderna, a distinção entre o "dentro" e o "fora" da estrutura produtiva é uma ilusão mantida apenas pela inércia. A obra é, portanto, um estudo erudito e inquietante sobre como a vida humana pode ser moldada e, eventualmente, anulada pela busca incessante por uma eficiência vazia de significado.
“Uma estreia estelar e alucinante. - Publishers Weekly“