Orbital - Harvey, Samantha

Edição:
Publicação: 30 de abril de 2025
Idioma: Português
Páginas: 192
Peso: 0.280 kg
Dimensões: 14 x 1 x 21 cm
Formato: Capa comum
ISBN-10: 6558261057
ISBN-13: 9786558261056

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Orbital - Samantha Harvey

A topografia da percepção em baixa órbita

Nesta narrativa, Samantha Harvey situa seis astronautas a bordo da Estação Espacial Internacional durante um período de vinte e quatro horas, intervalo no qual completam dezesseis órbitas ao redor da Terra. A estrutura do livro não se ancora em um conflito dramático convencional ou em uma crise técnica iminente, mas na repetição cíclica da observação. Através das janelas da estação, os personagens testemunham a sucessão de dias e noites que ocorrem a cada noventa minutos, transformando a percepção do tempo em algo fluido. A autora utiliza essa premissa para investigar como a distância física do planeta altera a compreensão da identidade e da escala humana. O olhar dos astronautas percorre continentes, oceanos e fenômenos climáticos, convertendo a geografia em um fluxo de cores e formas que ignora as fronteiras políticas estabelecidas no solo.

A escrita de Harvey detém-se nos detalhes da vida cotidiana sob microgravidade, descrevendo a mecânica de movimentos simples e a fisiologia dos corpos em um ambiente artificial. Essa atenção aos pormenores serve para ancorar a narrativa antes de expandi-la para meditações sobre a história da humanidade. O texto explora o contraste entre a fragilidade da nave e a imensidão do vácuo, tratando a tecnologia não como um fim, mas como uma extensão dos sentidos. A alternância entre as perspectivas dos astronautas — de diferentes nacionalidades e origens — cria um coro de vozes que reflete sobre a finitude e o luto, enquanto observam a Terra como um organismo vivo e vulnerável. A ausência de uma trama linear permite que a obra se concentre na experiência sensorial e intelectual de estar fora do mundo, olhando para ele.

A estética da distância e o peso da ausência

A obra aborda a relação entre o observador e o objeto observado, sugerindo que a visão orbital promove uma reconfiguração psíquica. Ao contemplar a Terra de uma altitude de quatrocentos quilômetros, os personagens enfrentam o que se conhece como efeito de visão panorâmica, uma mudança cognitiva que privilegia a totalidade em detrimento do fragmento. Harvey detalha como essa visão interfere nas memórias pessoais dos astronautas; as lembranças de suas vidas em terra — famílias, perdas, desejos — surgem intermitentes, como sinais de rádio distantes. A narrativa investiga a solidão inerente a essa posição, onde a proximidade física entre os membros da tripulação é o único contraponto ao vazio circundante.

A linguagem de Harvey é moldada pela natureza do cenário, utilizando termos técnicos e descrições atmosféricas para construir uma atmosfera de contemplação. O texto evita as convenções da ficção científica de aventura para habitar um espaço de investigação filosófica sobre o lugar do homem no cosmos. A autora analisa como a luz do sol, ao atingir a atmosfera, cria tonalidades que desafiam a nomenclatura comum, forçando os personagens a buscarem novas formas de articular o que veem. A reflexão estende-se para a responsabilidade ambiental e a pegada humana no planeta, observada através das luzes das cidades e da destruição de florestas, visíveis mesmo do espaço. É um estudo sobre a escala e a permanência, que questiona o que resta da experiência humana quando as referências terrestres de em cima e embaixo, dia e noite, são removidas.

Livro vencedor do Booker Prize 2024

 

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