| Edição: 2ª |
| Publicação: 11 de março de 2022 |
| Idioma: Português |
| Páginas: 152 |
| Peso: 0.210 kg |
| Dimensões: 13.8 x 1.3 x 21 cm |
| Formato: Capa comum |
| ISBN-10: 6559212270 |
| ISBN-13: 9786559212279 |
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Comprar LivroEm sua obra máxima, José J. Veiga utiliza o pacato lugarejo de Manarairema para edificar uma das alegorias mais contundentes da literatura brasileira sobre o autoritarismo. A narrativa rompe a calmaria da vida interiorana com a chegada de um grupo de forasteiros que se instala em uma "tapera" do outro lado do rio, mergulhando a população em um estado de vigilância constante e medo silencioso. O autor, com sua prosa limpa e erudita, detalha como a presença desses estranhos — cujas intenções permanecem sombrias — desarticula a rotina dos moradores, transformando a familiaridade de Manarairema em um território de incertezas e suspeições mútuas.
A estrutura do romance é dividida em três partes que marcam a escalada do sufocamento social: "A chegada", "A hora dos cachorros" e "A hora dos bois". Em Manarairema, a invasão não é apenas física, mas psicológica. Após o estabelecimento dos homens misteriosos, a vila é tomada por matilhas de cães e, posteriormente, por uma manada de bois que ocupa cada palmo de chão, forçando os habitantes ao confinamento em suas próprias casas. Através de personagens como Geminiano, Amâncio Mendes e Manuel Florêncio, Veiga explora a fragilidade da dignidade humana diante de um poder irracional e onipresente, sugerindo que a verdadeira tragédia de Manarairema não reside apenas na opressão externa, mas na passividade e na "ruminação" coletiva de quem aceita o absurdo como inevitável.
Publicado em 1966, o romance é indissociável do contexto político do Brasil da época, funcionando como uma crítica mordaz ao regime militar. Manarairema torna-se o palco onde o autoritarismo é dissecado em sua forma mais pura: aquela que não precisa de explicações para exercer o controle. A obra transcende o regionalismo ao tratar da desumanização e do silenciamento, transformando o destino de Vila Nova — como os moradores às vezes se referem a partes da região, mas consolidado no nome Manarairema — em um espelho da condição humana sob o cerco. Ao final, a partida dos invasores deixa em Manarairema não o alívio da vitória, mas o amargor de uma liberdade que foi devolvida tão arbitrariamente quanto foi retirada, deixando cicatrizes permanentes na alma de seus sobreviventes.
José J. Veiga é um mestre em transformar nomes sonoros e aparentemente pacatos em palcos de pesadelos burocráticos e existenciais. Manarairema não é apenas um cenário; é um personagem coletivo que adoece sob o peso da "ruminação" alheia e da própria passividade.
Em Manarairema, a estratégia dos invasores é o silêncio. Não há editais, não há proclamações de guerra; há apenas a ocupação física e o olhar constante. A "hora dos ruminantes" é o estágio final desse processo de desumanização, onde o boi — animal que mastiga e remastiga sem pressa — torna-se a metáfora perfeita para um poder que não precisa de pressa para aniquilar a vontade dos homens. Geminiano e os outros moradores de Manarairema veem suas vidas reduzidas ao espaço mínimo de suas casas, enquanto o espaço público é devolvido a uma animalidade indiferente.