| Edição: 2ª |
| Publicação: 27 junho 2023 |
| Idioma: Português |
| Páginas: 176 |
| Peso: 0.220 kg |
| Dimensões: 14 x 1 x 21 cm |
| Formato: Capa comum |
| ISBN-10: 6559282945 |
| ISBN-13: 9786559282944 |
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Comprar LivroPublicado em 2021, o romance de estreia de Camila Maccari, Dias de se fazer silêncio, estabelece-se como uma das vozes mais autênticas da literatura brasileira contemporânea ao tratar do luto sob a perspectiva da infância e da adolescência. A narrativa é conduzida por Maria, uma jovem que observa a lenta e inexorável degradação da saúde de seu irmão, Renan. A obra não se rende ao sentimentalismo fácil; ao contrário, utiliza uma linguagem culta e precisa para descrever o indizível: a espera pela morte dentro do ambiente doméstico. A erudição da autora manifesta-se na economia verbal, onde o silêncio não é apenas ausência de som, mas uma presença palpável que preenche os vácuos deixados pela dor e pela rotina hospitalar.
A trama subverte a lógica da tragédia para focar na "microfísica" do sofrimento. Maria narra as transformações na dinâmica familiar, o peso do cuidado e a solidão de quem fica em segundo plano diante da urgência da doença alheia. É um estudo sobre como o tempo se dilata e se retorce quando a morte se torna um hóspede permanente.
Maccari constrói uma geografia emocional onde o corpo de Renan é o centro de um sistema solar em colapso. Maria, em seu processo de amadurecimento, precisa lidar com a ambivalência de seus sentimentos: o amor profundo pelo irmão e a raiva silenciosa pela liberdade cerceada pela sombra da enfermidade. A qualidade editorial do romance reside na habilidade de capturar a sensorialidade do luto — o cheiro dos remédios, o som dos aparelhos, a textura do cansaço dos pais — transformando detalhes cotidianos em símbolos de uma angústia universal. A escrita de Maccari é uma "estética do detalhe", onde o pequeno e o ordinário ganham dimensões metafísicas.
A relação entre Maria e sua mãe é um dos pontos altos da obra, expondo a fragilidade dos laços familiares sob pressão extrema. O silêncio que dá título ao livro é a estratégia de sobrevivência de uma família que perdeu as palavras para descrever sua própria realidade. Mediante uma prosa elegante e despojada, a autora investiga como a identidade de quem sobrevive é moldada pela ausência de quem partiu, revelando que o luto não é um evento com fim, mas um processo de reconfiguração do ser.
Dias de se fazer silêncio encerra-se como uma elegia à vida que persiste apesar da interrupção. Maria encontra na memória e na observação atenta do mundo uma forma de honrar a existência do irmão. A obra dialoga com a tradição dos romances de formação (Bildungsroman), mas com um sinal invertido: o crescimento aqui não é marcado por conquistas, mas por despojamientos. Camila Maccari oferece ao leitor uma reflexão sobre a necessidade de encarar a finitude como parte intrínseca da experiência humana, sem as ilusões do otimismo ingênuo.
O legado deste romance é a afirmação de que a literatura pode dar contorno ao vazio. Ao final da leitura, o silêncio proposto pela autora não é opressor, mas reflexivo, um convite para que o leitor reconheça a sacralidade dos momentos compartilhados e a força silenciosa da resiliência. É, em última análise, um livro sobre a coragem necessária para continuar amando em um mundo onde tudo, inevitavelmente, se desfaz.