Felicidade ordinária - Iaconelli, Vera

Edição:
Publicação: 21 de setembro de 2024
Idioma: Português
Páginas: 304
Peso: 0.380 kg
Dimensões: 14 x 1.7 x 21 cm
Formato: Capa comum
ISBN-10: 6559791912
ISBN-13: 9786559791910

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Felicidade ordinária - Vera Iaconelli

"Felicidade ordinária" é uma coletânea de crônicas publicadas pela psicanalista Vera Iaconelli em sua coluna semanal no jornal Folha de S.Paulo. Lançado em 2024, o livro se estabelece como uma intervenção lúcida e necessária no debate contemporâneo sobre a saúde mental e o papel da psicanálise na sociedade.

1. A tese central: A acolhida da infelicidade necessária

O título da obra é uma referência direta e irônica à formulação de Sigmund Freud de que a psicanálise não promete a felicidade, mas sim a capacidade de lidar com a "infelicidade ordinária" (ou o sofrimento cotidiano). Iaconelli retoma essa premissa para:

Desconstruir o "platô" da felicidade: A autora critica a "tirania da felicidade" e o ideal neoliberal e consumista que a impõe como um estado constante, pleno e performático. Essa busca inatingível por um contentamento inabalável é vista como a principal fonte das angústias contemporâneas, como a ansiedade e a depressão, gerando a sensação ilusória de que "todo mundo está gozando, menos você."

Reconciliar-se com o sofrimento ordinário: Iaconelli argumenta que a dor, o luto, a perda e o fracasso são inerentes à condição humana e à consciência de nossa finitude. O grande erro da cultura moderna é tentar patologizar esse sofrimento. Ao aceitarmos o "sofrimento ordinário", nos libertamos da culpa e da obrigação de estarmos sempre bem, abrindo espaço para a felicidade ordinária, que é episódica, fugaz e acessível nos detalhes da vida.

2. A psicanálise como ferramenta social e política

A psicanalista extrapola o consultório, usando o referencial lacaniano para abordar temas sociais e políticos urgentes, revelando as camadas inconscientes que estruturam o cotidiano brasileiro.

O coletivo e o psiquismo: A obra demonstra como eventos de grande impacto social (como o fortalecimento do autoritarismo ou a pandemia de Covid-19) afetam diretamente o psiquismo individual e as relações afetivas. A psicanálise, neste contexto, assume uma posição ética e política de luta contra a alienação e a massificação, convidando o sujeito a se responsabilizar por suas condições existenciais.

Temas transversais: A coletânea se aprofunda em temas de grande relevância, como parentalidade (uma área de especialidade de Iaconelli, já abordada em Manifesto Antimaternalista), explorando o impacto da idealização da maternidade. Ela também discute relações afetivas, sexualidade, educação, e a complexa dinâmica do preconceito, expondo a verdade do desencontro e a necessidade de assumir os abismos nas relações.

3. Estilo e impacto

O estilo de Vera Iaconelli é acessível, fluido e incisivo, mantendo a consistência do referencial psicanalítico mesmo ao traduzir o cotidiano.

Linguagem envolvente: A autora guia o leitor por uma jornada de reflexão que o confronta com seus próprios medos e desejos.

Conexão com a vida: Os textos são "leituras surpreendentes do cotidiano", transformando as angústias contemporâneas em matéria-prima para o pensamento, e reafirmando que o caminho para o bem-estar não está na atuação (desempenho), mas na aceitação da vulnerabilidade.

Em síntese, "Felicidade ordinária" não oferece conselhos simplórios de autoajuda, mas sim um convite psicanalítico para uma vida mais autêntica: uma vida na qual se pode, sem culpa, desfrutar da felicidade quando ela aparece, por aceitar-se o sofrimento quando ele se instala.

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