O Retorno - Matar, Hisham

Edição:
Publicação: 16 de agosto de 2022
Idioma: Português
Páginas: 280
Peso: 0.440 kg
Dimensões: 14 x 1.5 x 20 cm
Formato: Capa comum
ISBN-10: 6559980545
ISBN-13: 9786559980543

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O retorno - Hisham Matar

A topografia da ausência e o labirinto da memória

Neste relato autobiográfico, o escritor Hisham Matar narra o seu regresso à Líbia em 2012, após trinta anos de exílio, motivado pela queda do regime de Muammar Gaddafi. O eixo central da narrativa é a busca incessante por seu pai, Jaballa Matar, um proeminente dissidente político sequestrado no Cairo em 1990 e entregue às autoridades líbias, desaparecendo nas celas da prisão de Abu Salim. A obra não se limita a um registro histórico ou jornalístico; ela se constitui como uma meditação sobre a natureza do luto suspenso — a agonia de quem não possui um corpo para enterrar nem uma confirmação definitiva da morte. Matar utiliza a viagem física pelo território líbio como uma metáfora para uma incursão nos corredores da memória e da burocracia do terror, onde o tempo parece ter estagnado para aqueles que ficaram à espera.

A escrita de Matar é marcada por um rigor que evita o sentimentalismo em favor de uma análise precisa das emoções e dos fatos. O texto detalha as complexas negociações políticas e os encontros com ex-prisioneiros, familiares e oficiais, construindo um painel da repressão política e das cicatrizes deixadas por décadas de ditadura. A reflexão estende-se à relação entre pai e filho, mediada pela literatura e pela política, onde a figura paterna assume proporções míticas e, ao mesmo tempo, dolorosamente humanas. A narrativa explora como a ausência de um indivíduo pode ocupar um espaço físico e psíquico maior do que sua presença, moldando a identidade de todos os que permanecem em sua órbita.

A arte como resistência e a política do desaparecimento

A obra aborda o papel da arte e da cultura na preservação da sanidade e da dignidade em tempos de barbárie. Matar, um estudioso da pintura renascentista, utiliza referências artísticas para iluminar sua própria dor, estabelecendo paralelos entre o sofrimento individual e a representação estética universal. A análise foca na arquitetura das prisões e na geografia do medo, descrevendo como o regime ditatorial operava para apagar a individualidade e a história dos opositores. O texto investiga a diferença entre o luto comum e o luto imposto pelo desaparecimento forçado, sugerindo que a falta de uma conclusão impede a cicatrização da alma. A jornada do autor é uma tentativa de restabelecer a linearidade de uma história que foi violentamente fragmentada pelo Estado.

A linguagem da obra é depurada, concentrando-se na força dos substantivos e na clareza das situações descritas. Matar analisa a ambivalência do retorno: o reencontro com a terra natal traz, simultaneamente, o alívio do pertencimento e o choque da desolação. A reflexão sobre a esperança é tratada com ceticismo, como uma força que pode ser tão sustentadora quanto destrutiva. O livro não oferece uma resolução fácil ou um encerramento catártico; em vez disso, ele firma-se como um testemunho sobre a resiliência da memória contra o esquecimento imposto pela tirania. A escrita de Hisham Matar revela que, embora o pai possa nunca ser encontrado, o ato de narrar sua história e a busca por ele é o que permite ao filho recuperar sua própria voz e lugar no mundo.

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