| Edição: 1ª |
| Publicação: 19 de dezembro de 2022 |
| Idioma: Português |
| Páginas: 230 |
| Peso: 0.240 kg |
| Dimensões: 14 x 1.5 x 22 cm |
| Formato: Capa comum |
| ISBN-10: 6559980847 |
| ISBN-13: 9786559980840 |
Quer comprar este livro?
Comprar LivroNesta narrativa coral, Yasmina Reza estrutura a obra através de dezoito monólogos que se entrelaçam para compor um painel das neuroses e dos impasses afetivos da burguesia contemporânea. O título, extraído de um poema de Jorge Luis Borges, estabelece de imediato uma ironia sobre a natureza da felicidade e a impossibilidade de sua manutenção plena nos vínculos interpessoais. A autora utiliza uma técnica de perspectiva múltipla em que personagens secundários num capítulo assumem o protagonismo no seguinte, revelando as discrepâncias entre a autoimagem de cada indivíduo e como são percebidos pelos outros. O texto foca-se na banalidade dos conflitos — uma discussão num supermercado sobre que tipo de queijo comprar ou o desentendimento sobre um horário — como sintomas de fissuras existenciais profundas que ameaçam a estabilidade dos casais e das amizades.
A escrita de Reza detém-se na análise da linguagem como ferramenta de distanciamento. Os diálogos, frequentemente repletos de interrupções, silêncios e mal-entendidos, expõem a dificuldade de comunicação genuína entre sujeitos encerrados nas suas próprias subjetividades. A autora explora o contraste entre o decoro social das personagens e a violência das suas correntes de pensamento, que transbordam em fluxos de consciência marcados pelo ressentimento e pela ironia. A estrutura fragmentária do livro permite uma investigação sobre a natureza do tempo e do desgaste, sugerindo que as relações humanas não se dissolvem em grandes eventos dramáticos, mas na acumulação quotidiana de pequenas omissões e irritações. A narrativa evita o julgamento moral, preferindo observar a comédia trágica da convivência com uma objetividade desprovida de ilusões.
A obra aborda o isolamento inerente à condição humana, mesmo dentro de estruturas supostamente sólidas como o casamento ou a família. Reza detalha como cada personagem luta para manter uma narrativa coerente sobre a sua própria vida enquanto enfrenta o desmoronamento das suas idealizações. A análise foca-se na figura do outro como um espelho indesejado, que reflete as limitações e o envelhecimento do sujeito. A reflexão estende-se à questão do desejo e da sua extinção, investigando como a rotina transforma a paixão em hábito e a admiração em desprezo. A autora utiliza o cenário urbano de Paris para sublinhar a solidão coletiva de indivíduos que se cruzam e interagem sem nunca verdadeiramente se conhecerem ou se compreenderem.
A linguagem da narrativa é direta e precisa, eliminando excessos para permitir que a força das situações se manifeste por si mesma. Reza analisa as convenções sociais e os rituais de cortesia como máscaras que escondem o desespero e a vacuidade. A reflexão sobre a finitude e a morte surge de forma intermitente, lembrando as personagens da urgência de encontrar um sentido que lhes escapa. O livro conclui que a felicidade, tal como sugerida pelo título, é uma condição rara e talvez inacessível para aqueles que analisam demasiado a vida. A obra firma-se como um estudo sobre a anatomia do descontentamento moderno, revelando que a única ligação possível entre os indivíduos é o reconhecimento comum da sua própria fragilidade e imperfeição.