| Edição: 1ª |
| Publicação: 10 de julho de 2025 |
| Idioma: Português |
| Páginas: 176 |
| Peso: 0.210 kg |
| Dimensões: 13.5 x 1 x 20 cm |
| Formato: Capa comum |
| ISBN-10: 6560001040 |
| ISBN-13: 9786560001046 |
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Comprar LivroNeste romance, Marilene Felinto prossegue com a investigação da subjetividade iniciada em obras anteriores, centrando a narrativa na figura de uma mulher que se debruça sobre os escombros de sua própria história familiar e social. A protagonista, em um movimento de retorno e confronto, utiliza a linguagem como uma ferramenta de escavação para expor as feridas abertas por relações de poder, preconceito e abandono. O texto não se organiza de forma linear, mas mediante fluxos de consciência e fragmentos de memória que mimetizam a instabilidade do afeto. A escrita de Felinto é marcada por uma recusa à conciliação; ela não busca a cura através do relato, mas a afirmação de uma identidade que se constitui no conflito. A autora explora a tensão entre a origem periférica e a inserção no mundo intelectual, revelando as fraturas que essa trajetória impõe ao sujeito.
A narrativa detém-se na análise das figuras parentais, especialmente na relação com o pai, figura que encarna a autoridade e a frustração. A protagonista disseca as memórias da infância e da juventude não com nostalgia, mas com um olhar que busca desvelar a violência contida nos silêncios e nas omissões. A reflexão estende-se para a condição da mulher negra e migrante na metrópole, onde a invisibilidade e o estereótipo operam como mecanismos de exclusão. Felinto utiliza a metáfora da corsária para designar essa posição de ataque e defesa, de quem precisa saquear a cultura e a língua do colonizador para construir um espaço próprio de existência. O texto avança por meio de repetições e variações temáticas, criando uma cadência que reflete o martelar constante da memória sobre o presente.
A obra aborda a escrita como um ato de sobrevivência e de vingança simbólica. Para a narradora, as palavras são objetos concretos que possuem o poder de ferir ou de restabelecer uma justiça pessoal. Felinto analisa a estrutura da língua portuguesa e o modo como ela carrega as marcas da escravidão e da desigualdade de classe, propondo uma subversão interna do discurso acadêmico e literário tradicional. A protagonista não deseja a aceitação dos círculos de poder, mas a destruição das máscaras que sustentam a cordialidade brasileira. A narrativa investiga como o trauma se aloja no corpo e na fala, manifestando-se em uma prosa que alterna entre a crueza descritiva e a sofisticação intelectual.
A relação com a cidade de São Paulo aparece como um cenário de desterro, onde a protagonista circula como uma estrangeira em sua própria terra. A autora detalha a geografia urbana não apenas como espaço físico, mas como uma rede de signos de opressão e resistência. A análise dos encontros casuais, dos diálogos truncados e das percepções sensoriais serve para construir um painel da solidão moderna. O livro recusa o ponto final ou a resolução pacífica, terminando em um estado de abertura e prontidão. A obra firma-se como um exercício de autonomia, onde o sujeito assume o controle de sua narrativa para impedir que outros a definam. É um estudo sobre o peso da herança e a possibilidade de inventar um destino a partir da recusa do que foi herdado.