O fazedor de amanhecer - Barros, Manoel de

Edição:
Publicação: 30 de janeiro de 2023
Idioma: Português
Páginas: 48
Peso: 0.230 kg
Dimensões: 17.2 x 0.5 x 30.5 cm
Formato: Capa comum
ISBN-10: 6581776335
ISBN-13: 9786581776336

Quer comprar este livro?

Comprar Livro

O fazedor de amanhecer - Manoel de Barros

A infância e a reconstrução do dia

Em O fazedor de amanhecer, Manoel de Barros nos conduz por uma jornada de retorno às fontes primevas da percepção, onde o ato de escrever se confunde com o ato de criar o mundo. A obra, embora guarde a aparência de uma literatura voltada ao público infantojuvenil, transborda os limites etários para se consolidar como um tratado sobre a imaginação criadora. O "fazedor de amanhecer" não é uma figura solar ou heroica nos moldes clássicos, mas sim um artífice do lúdico que, através do uso insólito das palavras, opera o milagre cotidiano de despertar a luz e o sentido nas coisas adormecidas pelo hábito.

O estilo de Barros nesta obra é de uma leveza densa, se é que tal oxímoro é permitido. Ele utiliza a técnica da "transfiguração do real", onde um simples objeto ou um fenômeno natural é deslocado de sua função utilitária para ganhar uma dimensão mítica. A linguagem é táctil, cheia de texturas e cheiros, operando por meio de associações que desafiam a lógica cartesiana. O poeta brinca com a morfologia e a sintaxe, criando verbos que "passarinham" e adjetivos que "anoitecem", reafirmando que a função da poesia é devolver ao homem o espanto diante da aurora.

A ecologia do sagrado e o elogio do pequeno

A narrativa poética estrutura-se como um convite ao olhar demorado. Barros propõe uma ecologia do sagrado, onde a santidade reside no orvalho, na casca da árvore e no inseto que cruza o caminho. Para o "fazedor de amanhecer", o tempo não é medido pelo relógio, mas pelo ritmo das águas e pelo crescimento do musgo. A obra celebra a figura do "idiota" no sentido dostoievskiano — aquele que, por ser puro e desprovido de malícia social, consegue enxergar as conexões invisíveis que unem todos os seres.

Há, nesta obra, uma profunda reflexão sobre o papel do artista na sociedade contemporânea. Em um mundo obcecado pela produtividade e pela velocidade, o fazedor de amanhecer é aquele que se detém para "perder tempo" com o que não tem preço. Ele ensina que o amanhecer não é apenas um fenômeno astronômico, mas uma conquista da sensibilidade humana. Ao final do livro, o leitor é levado a compreender que todos possuímos essa capacidade demiúrgica de reinventar o cotidiano, desde que estejamos dispostos a desaprender as definições prontas e a habitar, novamente, o estado de graça da infância espiritual.

 

Mais livros