| Edição: 1ª |
| Publicação: 3 de abril de 2024 |
| Idioma: Português |
| Páginas: 376 |
| Peso: 0.560 kg |
| Dimensões: 16 x 2 x 23 cm |
| Formato: Capa comum |
| ISBN-10: 6587404987 |
| ISBN-13: 9786587404981 |
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Comprar LivroNeste volume inaugural de sua obra magistral, o historiador suíço Jacob Burckhardt afasta-se da historiografia factual de batalhas e dinastias para empreender uma análise profunda da alma grega através de sua cultura e mentalidade. Publicada postumamente a partir de suas preleções na Universidade de Basileia, a obra introduz o conceito fundamental do "homem agonal": a percepção de que o espírito grego era movido por uma competição incessante pela excelência (aretê). Burckhardt demonstra como esse impulso competitivo, inicialmente manifestado no heroísmo individual da era homérica, transmutou-se na base da estrutura política e social da pólis. Para o autor, o grego não buscava a paz ou o conforto, mas a glória imortal através do embate, seja na guerra, nos jogos atléticos ou na oratória.
A análise de Burckhardt foca intensamente na transição da monarquia heroica para a organização das cidades-estado. Ele descreve a pólis não apenas como uma unidade geográfica, mas como uma força espiritual absorvente que exigia a dedicação total do cidadão. O autor destaca a ambivalência dessa relação: se por um lado a cidade-estado proporcionava o palco para a grandeza humana, por outro, exercia uma tirania sobre o indivíduo, onde o ostracismo e a vigilância mútua eram ferramentas constantes. Este volume explora como a religião grega, desprovida de dogmas rígidos ou de uma casta sacerdotal dominante, funcionava como um elemento de coesão estética e patriótica, onde os deuses eram projeções da própria vitalidade e das paixões humanas.
Burckhardt dedica páginas brilhantes à formação da aristocracia e ao papel do mito na educação do povo grego. Ele argumenta que o mito não era uma "crença" no sentido moderno, mas a própria atmosfera em que o grego respirava, fornecendo os modelos de conduta e a justificativa para as hierarquias sociais. O historiador analisa o surgimento das tiranias como uma etapa necessária de ruptura com o arcaísmo, permitindo a emergência de personalidades fortes que moldaram o Estado como se fosse uma peça de escultura. A visão de Burckhardt é marcada por um realismo melancólico; ele reconhece a beleza inigualável da criação grega, mas não ignora o solo de escravidão e conflito perpétuo sobre o qual ela foi erguida.
O volume encerra-se com uma reflexão sobre a singularidade do desenvolvimento helênico em comparação com as teocracias orientais. Enquanto no Oriente o indivíduo era súdito de um monarca divino, na Grécia, o homem descobriu a si como sujeito político e criador de leis. A obra de Burckhardt permanece essencial por sua capacidade de sintetizar filosofia, arte e política em uma narrativa coesa, revelando que a "serenidade grega" — tão propalada pelo neoclassicismo — era, na verdade, o equilíbrio tenso de forças vulcânicas e de uma luta incessante pelo reconhecimento individual dentro da coletividade.
“Nossa missão, tal como a entendemos, é expor a história do modo de pensar e das concepções do povo grego, procurando destacar as forças vivas, construtivas e destrutivas que operam na vida grega. Não narrativamente, mas, antes, historicamente ― sobretudo porque sua história representa parte da história universal ―, convém examinar os gregos em suas características essenciais, aquelas que os distinguem do antigo Oriente e das nações modernas, formando, contudo, a grande transição entre esses dois mundos. Todo o nosso estudo deve se concentrar neste ponto, na história do espírito grego. O detalhe, ou aquilo a que se dá o nome de acontecimento, tem direito à palavra somente para corroborar o universal e não para advogar em causa própria, posto que os eventos que buscamos são as mentalidades, que certamente também são, a seu modo, eventos.” - Jacob Burckhardt