| Publicação: 2 de julho de 2024 |
| Idioma: Português |
| Páginas: 168 |
| Peso: 0.90 kg |
| Dimensões: 23 x 16 x 2.5 cm |
| Formato: Capa comum |
| ISBN-10: 6598392764 |
| ISBN-13: 9786598392765 |
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Comprar LivroO livro "História da Inquisição: Sem Mitos" é uma obra do historiador e padre jesuíta francês Jean Guiraud (1866–1953).
Este livro se insere em uma corrente historiográfica que busca revisitar a história da Inquisição Medieval para desafiar as narrativas populares e os exageros que, segundo seus defensores, foram criados ao longo dos séculos (principalmente durante o Iluminismo e a Reforma Protestante), e que se tornaram a base do que é chamada de "Lenda Negra".
Desmistificação: O propósito central de Guiraud é separar os fatos históricos documentados dos mitos e preconceitos que obscurecem a Inquisição. Ele argumenta que muitos dos relatos sobre tortura e execuções em massa são exagerados ou aplicam padrões de julgamento anacrônicos (próprios da modernidade) a um contexto medieval.
Contexto Histórico: O livro enfatiza que a Inquisição surgiu como um mecanismo da Igreja para proteger a unidade da fé e a ordem social, inicialmente para combater heresias que ameaçavam o tecido social da época (como os Cátaros).
Relação com o Poder Civil: Guiraud destaca a distinção entre a Inquisição Eclesiástica (o tribunal da Igreja) e o poder civil (secular), argumentando que a pena capital (a fogueira) era, geralmente, aplicada pelas autoridades civis após a Igreja ter entregue o réu.
Análise Equilibrada: A obra busca fornecer uma análise "equilibrada" e "fundamentada" no rigor histórico, defendendo o papel da Igreja como guardiã da fé.
O livro "História da Inquisição: Sem Mitos" (Jean Guiraud) insere-se na corrente do Revisionismo Católico Apologético da historiografia, que surgiu em parte como reação à chamada "Lenda Negra". Embora a intenção de Guiraud seja buscar o rigor documental, sua própria posição e o contexto de escrita do livro impõem vieses criticados pela historiografia moderna.
Ponto de Vista: Guiraud, como padre jesuíta e historiador ligado à instituição, possui um interesse direto em defender a reputação da Igreja Católica.
Crítica historiográfica: A crítica acadêmica moderna (como a de Henry Kamen ou a historiografia não confessional) aponta que este tipo de obra, ao tentar refutar os exageros da Lenda Negra, frequentemente incorre no erro oposto: o revisionismo excessivamente brando ou apologético. O objetivo deixa de ser a análise histórica objetiva e passa a ser a defesa institucional. A busca por "sem mitos" acaba sendo substituída pela criação de uma narrativa "sem falhas graves" para a instituição.
Argumento de Guiraud: Ele argumenta que os tribunais inquisitoriais devem ser entendidos no contexto de sua época (o Medievo), onde a fé era a base da unidade social e as punições eram severas em toda a Europa. Além disso, ele enfatiza que a pena de morte era aplicada pelo poder civil (secular), e não diretamente pela Igreja.
Crítica à seletividade: Embora seja crucial contextualizar (o que os historiadores modernos concordam), a crítica é que Guiraud usa esse argumento para desresponsabilizar a Igreja. A Igreja era a autoridade que emitia a sentença de heresia e, ao "entregar" o réu ao braço secular, ela tinha pleno conhecimento e concordância com a pena capital subsequente. A distinção entre o tribunal eclesiástico e a execução civil torna-se, na prática, uma formalidade jurídica que não anula a responsabilidade moral.
Atrocidades imperdoáveis: É essencial confrontar diretamente a justificação de Guiraud. Para a historiografia crítica, o fato de a Inquisição ter sido "menos cruel" que a justiça secular da época (um ponto frequentemente levantado pelos revisionistas) não anula o seu caráter repressivo, o uso de tortura (ainda que "raro" e regulamentado, como apontam defensores) ou a repressão sistemática da liberdade de consciência, a verdadeira afronta moral e moderna.
O Problema da Fontes: Embora Guiraud baseie sua obra em fontes, historiadores mais recentes que tiveram acesso aos Arquivos Secretos do Vaticano ou aos arquivos de Salamanca (como Henry Kamen, Gustav Henningsen, ou Bovero) frequentemente mostram uma imagem mais matizada. O problema das obras apologéticas não é necessariamente a inclusão de dados falsos, mas a omissão ou a minimização de dados que contradizem a tese da "suavidade" ou da "justeza" da Inquisição.
Foco na Heresia vs. Consequências Sociais: A obra de Guiraud tende a focar o problema na heresia como ameaça à ordem divina, minimizando as consequências sociais e a perseguição a grupos minoritários, como os cristãos-novos na Inquisição Espanhola e Portuguesa, cujos autos mostram uma perseguição motivada não apenas pela fé, mas também por questões étnicas e econômicas (limpieza de sangre - pureza de sangue), como apontam estudos da UFMG e de outros centros.
A crítica fundamental à obra de Jean Guiraud não é que ela seja totalmente desprovida de fatos, mas sim que ela é uma obra de tese com um propósito apologético e laudatório, que objetiva resguardar os interesses e a reputação da Igreja.
Em vez de ser um farol de objetividade, como frequentemente é descrita por seus editores, é uma peça na disputa historiográfica que busca defender a instituição Igreja Católica de críticas seculares e protestantes, minimizando as atrocidades e os abusos de poder que, mesmo que fossem menores em número do que a "Lenda Negra" sugere, ainda representam uma grave repressão à liberdade e à vida, o que corrobora o argumento de serem atos imperdoáveis.