Bartleby, o escrivão - Melville, Herman

Edição:
Publicação: 20 de fevereiro de 2017
Idioma: Português
Páginas: 96
Peso: 0.140 kg
Dimensões: 20.6 x 13.2 x 1 cm
Formato: Capa comum
ISBN-10: 8503013118
ISBN-13: 9788503013116

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Bartleby, o escrivão - Herman Melville

A metafísica da inércia e o abismo da negação

Em Bartleby, o escrivão, Herman Melville tece uma das mais desconcertantes e profundas parábolas da literatura moderna, antecipando em décadas o absurdo kafkiano e o existencialismo. A narrativa, situada no ambiente árido e burocrático de Wall Street, é conduzida por um advogado de índole pragmática e prudente, que contrata Bartleby para integrar seu quadro de copistas. O que se inicia como um relato de costumes laborais transfigura-se, contudo, em uma investigação ontológica quando o novo funcionário, com uma serenidade inabalável, passa a responder a qualquer solicitação com a icônica fórmula: "Eu preferiria não fazê-lo".

O estilo de Melville nesta obra abandona a exuberância oceânica de Moby Dick em favor de uma prosa contida, quase claustrofóbica, que mimetiza o confinamento dos escritórios nova-iorquinos. A repetição da negativa de Bartleby não é um ato de rebeldia ativa ou de cólera, mas uma manifestação de resistência passiva que suspende as engrenagens da lógica produtiva. Através de uma linguagem precisa e de um humor sutilmente melancólico, o autor constrói uma atmosfera onde o silêncio do escrivão ecoa como um grito contra a desumanização do trabalho e a vacuidade das relações sociais fundamentadas apenas no contrato.

O espelho da alteridade e o vácuo existencial

A relação entre o narrador e Bartleby é o cerne psicológico do texto. O advogado, representante da ordem, da caridade condescendente e da razão, vê-se desarmado diante de um homem que não deseja nada, não possui família, não se alimenta adequadamente e, por fim, habita o próprio escritório. Bartleby é a personificação do "não ser", uma figura que se despoja gradualmente de todas as camadas de identidade social até restar apenas a pura presença física. Sua recusa em participar do jogo da existência confronta o narrador com a própria finitude e com a insuficiência das convenções humanas diante do mistério do outro.

A obra explora a transição da perplexidade para a piedade e, finalmente, para o horror. Ao ser removido à força e encarcerado, Bartleby mantém sua preferência pela inanição e pelo silêncio, culminando em um desfecho de uma tristeza absoluta sob as muralhas da prisão. Melville sugere que Bartleby é um mensageiro do vazio, uma alma que vislumbrou a inutilidade de todo esforço humano e escolheu a imobilidade como a única forma honesta de habitar um mundo sem sentido. O lamento final do narrador — "Ah, Bartleby! Ah, humanidade!" — sela a obra como um réquiem para a condição humana em sua mais nua e desoladora solidão.

 

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