Fazenda modelo - Buarque, Chico

Edição: 19ª
Publicação: 1 de maio de 1992
Idioma: Português
Páginas: 128
Peso: 0.180 kg
Dimensões: 20.83 x 13.72 x 1.02 cm
Formato: Capa comum
ISBN-10: 8520001580
ISBN-13: 9788520001585

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Fazenda modelo

O livro "Fazenda modelo" é um romance do escritor brasileiro Chico Buarque de Holanda, embora seja uma obra controversa em termos de autoria original.

O romance foi publicado em 1974, durante o período da Ditadura Militar no Brasil, e é uma obra que utiliza a alegoria para criticar o regime autoritário e a repressão.

🐂 A fazenda alegórica

A história se passa em um futuro próximo e gira em torno de uma fazenda aparentemente moderna e eficiente, a Fazenda Modelo, concebida para ser um laboratório social e um exemplo de organização para o país.

O narrador: o protagonista e narrador é Darli, um veterinário que trabalha na fazenda e é o porta-voz do sistema. Ele é um homem metódico e um tanto ingênuo, totalmente absorvido pela ideologia de progresso e ordem pregada pela Fazenda Modelo.

A fazenda: a fazenda é um microcosmo altamente organizado e hierarquizado. Ela é gerida com a mesma lógica tecnocrática, autoritária e repressiva do regime militar que governava o Brasil na época. Tudo é controlado: o trabalho, a alimentação, a reprodução e até mesmo o pensamento dos funcionários e dos animais.

A desumanização: a narrativa de Darli, obcecada por gráficos, números e eficiência, revela progressivamente a desumanização dos indivíduos no sistema. Os funcionários são tratados como animais, e os animais (principalmente o gado) são tratados como objetos de produção, sem qualquer dignidade.

A alegoria da ditadura

O livro é uma alegoria e sátira política.

O milagre econômico: a fazenda modelo representa o "milagre econômico" brasileiro da época, que, apesar de alardear o sucesso financeiro e o progresso, era sustentado pela repressão e pela violência contra aqueles que se desviavam da norma.

A repressão e a censura: a linguagem do narrador é cheia de eufemismos e omissões, refletindo o clima de censura da ditadura. O leitor precisa ler nas entrelinhas para entender a violência e a arbitrariedade que ocorrem sob a fachada da "ordem".

A revolta: a trama culmina com um ato de revolta por parte dos animais e, em seguida, dos trabalhadores, representando a luta contra o autoritarismo e a busca por liberdade.

⚠️ A questão da autoria

Embora publicado sob o nome de Chico Buarque (que, como artista, tinha algum trânsito com a censura, permitindo a publicação da obra), há uma controvérsia sobre a autoria original do livro. O livro é amplamente creditado ao escritor e poeta mineiro Hélio Pellegrino (1924–1988), que estava em tratamento psiquiátrico na época e teria escrito o romance. A versão consensual é que Chico Buarque teria sido o intermediário ou o coautor para driblar a censura e garantir a publicação.

🧐 Fontes e argumentos da controvérsia

As fontes e os argumentos que sustentam essa controvérsia giram em torno de três pontos principais: o contexto da ditadura, o estilo literário e os depoimentos de figuras próximas aos envolvidos.

1. o contexto da ditadura militar

Hélio Pellegrino estava internado em uma clínica psiquiátrica em São Paulo sob tratamento intensivo quando o livro foi escrito e publicado.

Pellegrino era um intelectual de esquerda, amigo próximo de Chico Buarque e com forte atuação política, o que o tornava um alvo fácil da censura do regime.

O argumento mais difundido é que a obra foi escrita por Pellegrino, mas publicada sob o nome de Chico Buarque para ter uma chance maior de ser aprovada pela censura (que tratava artistas populares como Chico com alguma cautela, mas de forma diferente dos intelectuais "perigosos" como Pellegrino).

2. depoimentos e notas do autor

depoimentos de Chico Buarque: o próprio Chico Buarque, ao longo dos anos, fez declarações ambíguas sobre o processo de escrita. Ele chegou a citar a coautoria ou a forte influência de Pellegrino. Em entrevistas mais recentes, ele afirmou que o livro nasceu de "conversas intermináveis" com Pellegrino, dando a entender que o romance foi uma colaboração, com a escrita final sendo dele, mas a concepção e a crítica vinda do amigo.

Os cadernos de Pellegrino: amigos e familiares de Hélio Pellegrino citaram a existência de manuscritos e cadernos que continham o embrião e boa parte do conteúdo de "Fazenda Modelo".

O prefácio de Roberto Schwartz: o crítico literário Roberto Schwarz (uma fonte acadêmica de peso) escreveu um prefácio na reedição do livro, abordando a questão da autoria e a natureza da colaboração/empréstimo da obra, tratando o caso como uma simbiose intelectual peculiar da época.

3. O estilo literário

Alguns críticos apontam que o estilo denso, alegórico e a obsessão pela lógica formal e pelo discurso do poder em "Fazenda Modelo" se assemelham mais à prosa filosófica e à crítica psicanalítica de Hélio Pellegrino do que à linguagem lírica e mais fluida dos romances posteriores de Chico Buarque.

📚 Fontes confiáveis que citam o assunto

A controvérsia é um tema recorrente em estudos sobre a literatura da ditadura e a obra de Chico Buarque. Algumas fontes acadêmicas e críticas confiáveis que abordam o assunto incluem:

Roberto Schwarz: Em seu prefácio ou ensaios sobre o romance.

Diversos biógrafos de Chico Buarque: Como Ruy Castro, que detalha o contexto da amizade entre os dois e o período de internação de Pellegrino.

Estudos sobre Hélio Pellegrino: Obras sobre a vida e o pensamento de Pellegrino inevitavelmente tocam no tema de sua autoria "perdida" ou dividida.

Em resumo, o caso de "Fazenda Modelo" é um exemplo fascinante de como o clima de repressão e a censura da Ditadura Militar levaram a um fenômeno de autoria compartilhada ou emprestada, turvando as fronteiras entre os autores por necessidade política e solidariedade intelectual.

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