| Edição: 27ª |
| Publicação: 12 de agosto de 2014 |
| Idioma: Português |
| Páginas: 126 |
| Peso: 0.200 kg |
| Dimensões: 22.2 x 15 x 0.6 cm |
| Formato: Capa comum |
| ISBN-10: 9788528614794 |
| ISBN-13: 9788528614794 |
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Comprar LivroA dramaturgia de Dias Gomes encontra em O bem-amado o seu ápice de sátira política e crítica social, transpondo para o microcosmo de Sucupira as patologias crônicas do cenário institucional brasileiro. A narrativa orbita a figura de Odorico Paraguaçu, um demagogo de verborragia neológica e ética elástica, cuja maior ambição é a inauguração do cemitério municipal. A ironia central da obra reside no fato de que, em uma cidade onde ninguém morre, o progresso é medido pela capacidade de sepultamento, invertendo a lógica da vitalidade pública em prol de um monumento à finitude.
O estilo de Dias Gomes nesta peça é marcado por um domínio magistral da linguagem. O autor utiliza o solecismo e o neologismo não apenas como recurso cômico, mas como ferramenta de caracterização da "autoridade" vazia. Odorico não fala; ele performa através de termos como "deixadismo", "prafrentismo" e "entretantismo", criando uma cortina de fumaça linguística que seduz e confunde a população. Esta técnica expõe a fragilidade da democracia quando esta se torna refém do populismo messiânico e da manipulação do discurso.
Ao redor de Odorico, gravitam figuras que sintetizam os diversos estratos da dependência política. As irmãs Cajazeiras personificam a moralidade de fachada e o desejo reprimido, enquanto Dirceu Borboleta representa a burocracia ineficiente e servil, acossada pelo medo da autoridade. O antagonismo é exercido por Zeca Diabo, o matador de aluguel cuja ética profissional e religiosidade ingênua contrastam com o maquiavelismo do prefeito. O conflito entre a ordem imposta e o caos dos eventos naturais — ou a falta deles — conduz a obra a um desfecho onde o trágico e o burlesco se fundem de forma indissociável.
A obra transcende o seu tempo ao diagnosticar o "coronelismo de novo tipo", onde a força bruta é substituída pela sedução midiática e pela corrupção sistêmica. Dias Gomes constrói um painel onde o cemitério, objeto de desejo de Paraguaçu, torna-se a metáfora definitiva para um sistema político que só se justifica através da exploração da desgraça alheia ou da fabricação artificial de crises. A imortalidade indesejada de Sucupira é, em última análise, a paralisia de uma nação que busca no misticismo e na oratória as soluções que deveriam advir da gestão e da ética.