| Edição: 1ª |
| Publicação: 10 de março de 2020 |
| Idioma: Português |
| Páginas: 160 |
| Peso: 0.180 kg |
| Dimensões: 20.8 x 13.6 x 1 cm |
| Formato: Capa comum |
| ISBN-10: 8532531733 |
| ISBN-13: 9788532531735 |
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Comprar LivroA coletânea Felicidade clandestina, publicada originalmente em 1971, reúne alguns dos momentos mais fulgurantes da prosa curta de Clarice Lispector, consolidando sua estética da introspecção e do "instante-já". Embora o conto homônimo abra o volume com uma nota de desejo e crueldade infantil, o livro em sua totalidade funciona como um prisma que decompõe a luz da experiência humana em feixes de angústia, estranhamento e descoberta. Clarice não narra eventos; ela captura o sismo que ocorre sob a superfície da normalidade doméstica. O "clandestino" aqui não se limita ao segredo do livro cobiçado, mas estende-se à vida interior que pulsa, invisível e indomável, por trás das máscaras sociais de mães, filhas e donas de casa.
O estilo clariceano nesta reunião de textos atinge um equilíbrio magistral entre o rigor plástico e a fluidez psíquica. A autora utiliza a linguagem como um bisturi para dissecar o cotidiano, revelando que o horror e a beleza coabitam na mesma cena banal — uma xícara de café, a visão de um cego mascando chiclete ou a contemplação de um ovo. A sintaxe de Clarice é intencionalmente fragmentada e tateante, mimetizando o processo do pensamento que busca dar nome ao inominável. Ela subverte a estrutura clássica do conto, onde o clímax não é uma ação externa, mas uma mudança ontológica na percepção da personagem sobre si mesma e sobre o mundo.
Muitos dos contos exploram a fragilidade da identidade feminina e a opressão velada do ambiente familiar. Em narrativas como "Tentação" ou "O ovo e a galinha", Clarice mergulha na relação entre o humano e o animal, utilizando o bicho como um espelho da alteridade pura e da existência desprovida de intelecto, o que provoca nas protagonistas um misto de fascínio e repulsa. A cozinha e a sala de estar, palcos tradicionais da ordem burguesa, tornam-se territórios de perigo metafísico. Para Clarice, o verdadeiro perigo não é o externo, mas o reconhecimento de que a realidade é estranha e que a linguagem é apenas uma ponte precária sobre o abismo do ser.
A unidade desta coletânea reside na busca incessante pelo núcleo da vida. Seja através da memória da infância em Recife ou da observação de figuras marginais, a narradora clariceana está sempre em estado de alerta, pronta para a epifania — aquele breve momento em que o véu da rotina se rasga e a personagem vislumbra a "coisa em si". Felicidade clandestina é, portanto, um convite ao leitor para que abandone a segurança das certezas lógicas e aceite o convite para uma viagem rumo ao centro de si mesmo, onde a felicidade é um fruto roubado e o conhecimento é uma forma de exílio.
No conto que dá título a esta coletânea, Clarice Lispector opera uma das mais sutis e devastadoras anatomias da subjetividade infantil e da crueldade latente nas relações de poder. A narrativa, de matiz autobiográfico, descreve o suplício de uma menina ávida pela leitura, submetida ao sadismo de outra criança — filha de um dono de livraria — que lhe promete, dia após dia, o empréstimo de um livro cobiçado, apenas para negar-lhe o acesso no último instante. A obra transcende o relato anedótico para se tornar uma investigação sobre a natureza do desejo: a "felicidade clandestina" não advém apenas da posse do objeto, mas da fruição solitária e quase ritualística de um prazer que se esquiva do mundo compartilhado.
A relação entre as duas meninas é construída sob uma ótica de perversidade puramente humana. A antagonista, descrita com uma fealdade que reflete sua deformidade ética, não deseja o livro para si, mas utiliza a posse do objeto como ferramenta de tortura psicológica. Ela exerce um controle quase divino sobre a esperança da narradora, revelando como a posse de um bem — seja ele material ou intelectual — pode se tornar um instrumento de dominação. No entanto, quando a mãe da menina má intervém e entrega o livro à narradora, ocorre uma transfiguração: o prazer da leitura é adiado deliberadamente pela própria protagonista para que a sensação de domínio sobre a felicidade seja prolongada.
A conclusão do conto apresenta uma das imagens mais potentes da literatura brasileira: a menina abraçada ao livro, não como alguém que lê, mas como alguém que ama. A felicidade é "clandestina" porque é vivida nas sombras, à margem da utilidade prática e do olhar alheio. Clarice sugere que a verdadeira posse não ocorre no ato de ler, mas na consciência da disponibilidade do objeto. É um estado de graça alcançado através do sofrimento, onde o livro deixa de ser um conjunto de páginas para se tornar um amante silencioso, um refúgio metafísico contra a aspereza da realidade.