| Edição: 1ª |
| Publicação: 10 de março de 2020 |
| Idioma: Português |
| Páginas: 160 |
| Peso: 0.190 kg |
| Dimensões: 21 x 13.6 x 1.2 cm |
| Formato: Capa comum |
| ISBN-10: 853253175X |
| ISBN-13: 9788532531759 |
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Comprar LivroNesta coletânea de textos breves, contos e crónicas, Clarice Lispector exerce a sua capacidade singular de extrair o extraordinário do quotidiano mais banal. Para não esquecer, funciona como um mosaico da alma de Clarice, onde a autora regista impressões, diálogos fragmentados e epifanias colhidas no fluxo da vida diária. A narrativa afasta-se da densidade metafísica de obras como Água viva para abraçar uma linguagem que, embora mantenha a sua marca introspectiva, revela-se mais acessível e direta. Lispector utiliza estes textos como lembretes da condição humana, fixando no papel o que a memória, na sua fragilidade, poderia deixar escapar: o gesto de uma criança, a mística de uma flor ou a solidão inerente às relações sociais.
A escrita foca na captura do "instante", transformando a observação em reflexão filosófica. O texto detalha a relação da autora com a palavra e com o silêncio, explorando como o ato de nomear as coisas é uma forma de as possuir e, simultaneamente, de as libertar. A análise destaca a dualidade entre o doméstico e o selvagem, um tema recorrente na sua obra, onde a rotina da casa e da cidade é constantemente atravessada por vislumbres de uma realidade mais bruta e autêntica. Lispector analisa a própria identidade através do olhar do outro, registando encontros e desencontros que servem de espelho para as suas próprias inquietações sobre o ser e o tempo.
"Então escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra." - Clarice Lispector
A obra aborda a importância da atenção plena e da sensibilidade como ferramentas de sobrevivência num mundo automatizado. Lispector investiga a beleza escondida no erro, no inacabado e no espontâneo, sugerindo que a perfeição é uma forma de paralisia. A análise do texto destaca a crueza com que a autora encara a própria fragilidade, transformando as suas inseguranças em matéria literária de alta voltagem. A figura do "outro" — seja ele um animal, um estranho na rua ou um objeto inanimado — é tratada como um mistério a ser respeitado, e não como algo a ser explicado.
A linguagem da narrativa é depurada e vibrante, priorizando a força da imagem e a sugestão em detrimento da explicação lógica. A autora analisa o quotidiano como um território sagrado onde o sagrado se manifesta nas pequenas coisas. A reflexão estende-se para a própria natureza da memória: escrever é, para Clarice, um ato de resistência contra o esquecimento, uma forma de garantir que a intensidade da experiência vivida permaneça pulsante. O desfecho da leitura deixa no leitor a sensação de que a vida, para ser verdadeiramente sentida, exige uma entrega total ao presente e uma coragem constante para enfrentar o desconhecido que habita em cada um de nós.