| Edição: 1ª |
| Publicação: 30 de agosto de 2017 |
| Idioma: Português |
| Páginas: 576 |
| Peso: 0.59 kg |
| Dimensões: 20.4 x 13.2 x 2.8 cm |
| Formato: Capa comum |
| ISBN-10: 8532654835 |
| ISBN-13: 9788532654830 |
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Comprar LivroO livro "O nascimento do purgatório" (La Naissance du Purgatoire), publicado em 1981, é a obra mais célebre do historiador francês Jacques Le Goff e um marco na história das mentalidades.
A tese central do autor não é apenas descrever o Purgatório, mas sim demonstrar que o Purgatório, como um "terceiro lugar" de salvação e punição temporária, foi uma invenção social e teológica que ocorreu na Cristandade Ocidental entre os séculos XI e XIII.
Le Goff argumenta que o Purgatório não existia no cristianismo primitivo nem no início da Idade Média. A fé cristã primitiva reconhecia apenas dois destinos eternos: Céu e Inferno.
Necessidade Social: A ideia do Purgatório surgiu como uma solução para uma crise moral e econômica da sociedade feudal em desenvolvimento.
Moral: O rigor dualista de Céu/Inferno era insatisfatório para uma sociedade que via a maioria das pessoas como "nem tão boas a ponto de ir diretamente para o Céu, nem tão más para ir para o Inferno". Havia a necessidade de uma segunda chance ou de uma punição com data de término.
Econômica/Social: A nova doutrina legitimou a prática de orações, missas e doações por parte dos vivos para aliviar o sofrimento dos mortos. Isso criou uma forte interdependência entre vivos e mortos e gerou um novo sistema de valores e práticas, como as missas de alma e as indulgências.
O Tempo e o Espaço: A criação do Purgatório também reflete uma nova percepção do tempo na Idade Média. O Purgatório introduziu a ideia de um "tempo de purificação" após a morte, algo que não existia no dualismo eterno anterior.
A invenção do Purgatório teve implicações profundas que se estenderam muito além da teologia:
Economia da Salvação: O Purgatório criou uma verdadeira "economia da salvação". Ao estabelecer que o tempo de purificação poderia ser abreviado, a doutrina incentivou práticas como:
Orações e Missas: Serviços religiosos pagos pelos vivos para acelerar a libertação dos mortos.
Doações e Legados: A transferência de bens e terras para a Igreja em troca de missas e sufrágios (ajuda espiritual) para as almas dos falecidos.
Isso transformou a Igreja em uma vasta guardiã da riqueza e mediadora fundamental entre os vivos e os mortos.
O "Tempo da Igreja": O Purgatório introduziu a valorização do "tempo" na vida após a morte. A Igreja passou a ter poder não só sobre a eternidade (Céu/Inferno), mas também sobre um período temporal de sofrimento, algo que ressoava com o surgimento da cultura do tempo e do crédito na vida urbana medieval.
A doutrina mudou como os vivos interagiam com os mortos, criando uma nova comunidade de almas:
Intercessão: O Purgatório tornou a intercessão (o ato de orar por alguém) essencial. A salvação do indivíduo no Purgatório dependia diretamente da caridade e da ação dos vivos.
Contenção do Medo: Ao oferecer uma terceira via, o Purgatório serviu como uma forma de contenção do medo do Inferno eterno, dando esperança a uma população aterrorizada pela ideia da condenação definitiva, especialmente após a Peste Negra.
Em suma, Le Goff demonstra que o Purgatório foi um poderoso instrumento ideológico e financeiro que reorganizou o imaginário social e as relações de poder na Idade Média.
O livro é um excelente exemplo da metodologia da Escola dos Annales, pois Le Goff não estuda a doutrina apenas por meio de textos teológicos, mas também por meio da análise de fontes populares, sermões, arte e práticas sociais (como a fundação de hospitais e a iconografia da morte).
A obra estabeleceu o Purgatório não como uma verdade eterna, mas como um fenômeno histórico e cultural.