História noturna - Ginzburg, Carlo

Publicação: 13 de fevereiro de 2012
Idioma: Português
Páginas: 480
Peso: 0.41 kg
Dimensões: 18 x 12.4 x 2.6 cm
Formato: Capa comum
ISBN-10: 8535920420
ISBN-13: 9788535920420

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História noturna - Carlo Ginzburg

"História noturna: uma decifração do Sabá" (ou apenas História Noturna), obra do renomado historiador italiano Carlo Ginzburg. Esta é uma das obras mais complexas de Ginzburg, conhecida por sua metodologia de micro-história e história cultural.

🧙‍♀️A decifração do Sabá

O livro é o resultado de uma longa investigação que busca as origens dos mitos e rituais que a Inquisição e os tribunais europeus passaram a associar ao Sabá das Bruxas na Idade Moderna.

O Sabá como Misto Cultural: Ginzburg questiona a ideia simplista de que o Sabá era puramente uma invenção da Inquisição (um "mito" criado pelos inquisidores). Ele argumenta que o Sabá é, na verdade, uma amálgama complexa:

Agressão Doutrinária: Elementos criados e impostos pelos inquisidores (como a veneração ao Diabo e o pacto demoníaco).

Ritos Populares Autênticos: Elementos que vieram de tradições e cultos agrários xamânicos populares muito antigos, espalhados pela Europa (como rituais de fertilidade, crenças sobre a vida após a morte e encontros noturnos).

O Xamanismo Europeu: A principal tese de Ginzburg é que, por trás das confissões de bruxas e hereges, pode-se rastrear um substrato de crenças populares relacionadas a rituais xamânicos de êxtase noturno (a alma deixando o corpo para se juntar a procissões de mortos ou deusas da fertilidade).

A Noite: O "noturno" no título refere-se ao tempo e ao espaço onde esses encontros (reais ou imaginários) e rituais de êxtase, bem como o Sabá, ocorriam.

📚 Metodologia e importância

O livro é um exemplo brilhante do método de Ginzburg, que é o método indiciário (buscar a História por meio de detalhes, vestígios e exceções). Ele faz um trabalho de história comparada e etnografia histórica para rastrear essas crenças desde a Ásia Central até a Europa, utilizando relatos de folclore, mitos e transcrições de julgamentos da Inquisição.

🔬 O método indiciário e a Micro-História

A obra é um exemplo primoroso do método indiciário, que Ginzburg popularizou. Este método é crucial para entender como o historiador trabalha com fontes que, à primeira vista, parecem insignificantes ou delirantes:

Pequenos Vestígios: Em vez de focar em grandes narrativas políticas, Ginzburg busca a verdade histórica em "indícios" ou "vestígios" minúsculos, como um detalhe estranho em uma confissão de bruxaria, uma particularidade em um mito folclórico obscuro, ou a repetição de um motivo em fontes geograficamente distantes.

Inferência: Assim como um detetive ou um médico que diagnostica uma doença mediante sintomas mínimos, o historiador utiliza esses indícios para inferir a existência de crenças, rituais e culturas não documentadas oficialmente.

Micro-História: O uso desse método se alinha com a Micro-História, que Ginzburg cofundou. Embora "História Noturna" seja um estudo de longa duração e ampla geografia (Europa e Ásia), ele mantém o foco microscópico na experiência cultural e nas crenças populares que os grandes relatos históricos costumam ignorar.

Da caça às bruxas à crença popular

O grande acréscimo de Ginzburg ao estudo da caça às bruxas é a ideia de que o Sabá não era apenas uma fantasia teológica:

O "Núcleo Xamânico": Ginzburg sugere que a Inquisição, ao interrogar e torturar, estava inconscientemente colhendo fragmentos distorcidos de crenças populares muito antigas. Essas crenças envolviam rituais de êxtase em que a alma parecia viajar à noite para garantir a fertilidade das colheitas ou para acompanhar procissões de mortos.

A Fusão de Culturas: A Inquisição, ao tentar impor a demonologia (o culto ao Diabo) a essas práticas populares pagãs ou agrárias, acabou gerando a imagem híbrida e aterrorizante do Sabá das Bruxas—onde a crença popular e a imposição doutrinária se fundiram.

O livro é, portanto, uma ponte entre a história das elites (os inquisidores e suas ideias) e a história das classes subalternas (o folclore e a religiosidade popular).

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