O eleito - Mann, Thomas

Edição:
Publicação: 29 de outubro de 2018
Idioma: Português
Páginas: 272
Peso: 0.380 kg
Dimensões: 23.2 x 16 x 2 cm
Formato: Capa dura
ISBN-10: 8535931708
ISBN-13: 9788535931709

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O eleito - Thomas Mann

A hagiografia subvertida e a poética da transgressão

Publicado em 1951, O eleito representa uma das incursões mais audaciosas de Thomas Mann pelo território do mito e da paródia medieval, recontando a lenda de Gregório, o "bom pecador". Inspirado no poema Gregorius de Hartmann von Aue, o autor afasta-se do realismo burguês para abraçar uma linguagem que mimetiza o estilo das crônicas e hagiografias antigas, permeada por uma ironia refinada que questiona a natureza da graça divina. A trama inicia-se com um duplo incesto: os gêmeos de um ducado, em um excesso de amor narcísico, geram uma criança. Este herói, fruto de uma transgressão absoluta, é lançado ao mar em um barril e criado por pescadores, iniciando uma jornada que o levará, por um destino irônico e cego, a cometer o mesmo pecado de seus pais ao casar-se com a própria mãe sem a conhecer.

A narrativa é conduzida por Clemente, um monge narrador que personifica o "espírito do relato", permitindo que Mann brinque com a verossimilhança e o anacronismo. A densidade intelectual da obra reside na exploração do paradoxo do pecado: o autor sugere que apenas através da abjeção total e da queda mais profunda é que a verdadeira eleição espiritual se torna possível. Gregório não é escolhido apesar de seus crimes, mas quase devido à magnitude deles, que exigem uma penitência igualmente colossal. A descrição dos dezessete anos que o protagonista passa acorrentado a uma rocha no mar, sobrevivendo de forma milagrosa e regredindo a um estado quase mineral, é uma das passagens mais vívidas sobre a purificação através do sofrimento extremo.

A redenção pelo absurdo e a vitória da clemência

O clímax do romance ocorre quando, após a morte do Papa, visões divinas indicam que o novo soberano da Igreja deve ser buscado na rocha onde Gregório definha. O contraste entre a miséria física do penitente — reduzido a uma criatura ínfima e endurecida — e a pompa da delegação romana sublinha a visão de Mann sobre a imprevisibilidade da justiça celestial. A transformação de Gregório, de um monstro de pecado a Vigário de Cristo, é tratada com uma sobriedade que não oculta o humor sutil sobre as instituições religiosas. O autor utiliza a lenda para debater a possibilidade de renovação da civilização europeia no pós-guerra, sugerindo que nenhum passado é tão sombrio que não possa ser redimido por um ato de vontade e misericórdia.

A linguagem da obra é um espetáculo à parte, misturando elementos do alemão médio, francês e latim, criando uma textura verbal que evoca o passado enquanto comenta o presente. Mann demonstra que a dignidade humana não é uma condição estática, mas uma conquista alcançada no equilíbrio entre a fragilidade da carne e a aspiração do espírito. O eleito encerra-se com o reencontro entre Gregório e sua mãe-esposa, agora em um plano de caridade pura e desprovida de paixão erótica, consolidando a ideia de que o perdão é a força que reorganiza o caos do mundo. A obra é, em última análise, uma celebração da vida que persiste e se eleva mesmo a partir das origens mais terríveis e proibidas.

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