| Edição: 1ª |
| Publicação: 1 de julho de 2025 |
| Idioma: Português |
| Páginas: 120 |
| Peso: 0.180 kg |
| Dimensões: 14 x 1 x 21 cm |
| Formato: Capa comum |
| ISBN-10: 8535941053 |
| ISBN-13: 9788535941050 |
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Em “Bestiário”, sua primeira coletânea de contos publicada sob o nome definitivo, Julio Cortázar estabelece os fundamentos de um universo em que o fantástico não irrompe como uma força externa, mas habita as frestas do ordinário. Com uma prosa cirúrgica e uma sensibilidade aguçada para os mecanismos da percepção, o autor argentino convida o leitor a um passeio por residências burguesas, viagens ferroviárias e ambientes familiares que, subitamente, se tornam palcos de uma estranheza visceral. O fantástico, aqui, não se manifesta como o maravilhoso épico ou o terror gótico desenfreado, mas como uma falha geológica na estrutura da realidade doméstica, onde a lógica cede espaço a uma metafísica inquietante e profundamente irônica.
A obra é um exercício de precisão estilística, onde cada conto funciona como um organismo independente, dotado de uma lógica própria que se impõe à medida que a narrativa avança. Cortázar explora as relações de poder, o tédio das classes sociais e a tensão oculta nas interações humanas mais triviais. O uso recorrente de animais — o tigre, a circe, as formigas, o coelho — serve menos como representação alegórica rígida e mais como catalisador para uma desestabilização da consciência, obrigando o sujeito a confrontar a natureza selvagem, indomável e, por vezes, incompreensível que reside nas margens de sua própria normalidade.
A genialidade de Cortázar reside em sua capacidade de ancorar o impossível no concreto. Seus personagens são frequentemente indivíduos comuns, cujas vidas são atravessadas por eventos que desafiam a causalidade, mas que são tratados com uma naturalidade que beira o absurdo. A prosa é límpida, porém densa, carregada de uma atmosfera que se acumula como sombras em um salão crepuscular. Há uma consciência lúdica, mas sombria, sobre o ato de contar histórias, como se a literatura fosse, por si só, o labirinto onde o autor e o leitor se perdem para, eventualmente, descobrirem algo essencial sobre a frágil membrana que separa o real do imaginário.
Nos contos, o medo é destilado em gotas minuciosas, preferindo o silêncio e o gesto sutil ao impacto explícito. A leitura exige um estado de alerta constante, uma disposição para aceitar que o sentido não é uma dádiva oferecida, mas uma conquista laboriosa, alcançada por meio da interpretação das elipses e dos vazios que o autor espalha pelo caminho. É uma celebração do mistério que persiste sob a camada superficial do mundo moderno, reafirmando a capacidade da ficção de revelar, por meio da deformação, as verdades mais cruas e inconfessáveis da existência.
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