Dança de enganos - Hatoum, Milton

Edição:
Publicação: 21 de outubro de 2025
Idioma: Português
Páginas: 256
Peso: 0.300 kg
Dimensões: 14 x 1.4 x 21 cm
Formato: Capa comum
ISBN-10: 853594267X
ISBN-13: 9788535942675

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Dança de enganos - Milton Hatoum

A coreografia da desilusão e o crepúsculo da juventude

Em Dança de enganos, o aguardado desfecho da trilogia O lugar mais sombrio, Milton Hatoum encerra sua ambiciosa "comédia humana" brasileira, transportando o leitor para o final dos anos 1970 e o início da década de 1980. O romance retoma a trajetória de Martim, agora confrontado com o esgarçamento das utopias que alimentaram sua juventude em Brasília e São Paulo. O título é uma metáfora magistral para o jogo de máscaras e desvios que marca não apenas as relações afetivas do protagonista, mas o próprio processo de abertura política do Brasil. Hatoum descreve um tempo de transição, onde a liberdade espreita no horizonte, mas o passado de repressão e os segredos familiares continuam a exercer uma força centrípeta, mantendo os personagens em um movimento circular de encontros e desencontros.

O estilo de Hatoum nesta obra atinge o ápice de sua maturidade, fundindo o rigor clássico com uma sensibilidade moderna e fragmentária. A prosa é límpida, porém carregada de uma densidade emocional que reside nos subtextos e nas omissões. A narrativa é construída através de um complexo sistema de vozes e perspectivas — diários, cartas e lembranças — que mimetizam a dificuldade de se estabelecer uma verdade única em tempos de sombras. A linguagem, embora sóbria, possui uma cadência melancólica, evocando a atmosfera de uma São Paulo que se transforma e de uma Europa que serve de refúgio e exílio, consolidando o autor como um mestre na exploração do "sentimento do desterro".

O labirinto dos afetos e o enigma materno

A arquitetura do romance gravita em torno da busca incessante de Martim por sua mãe, Lina, cujo desaparecimento é o fio de Ariadne que atravessa toda a trilogia. Em Dança de enganos, essa busca atinge um ponto de saturação existencial. Hatoum investiga como os traumas políticos da ditadura se entranham na medula das relações privadas, gerando uma incomunicabilidade que condena os personagens à solidão. O grupo de amigos da FAU-USP, outrora unido por sonhos coletivos, vê-se agora disperso, cada um lidando com suas próprias renúncias e traições. A obra aborda a falência das grandes narrativas e a necessidade de reconstruir o "eu" sobre as ruínas das expectativas frustradas.

O "engano" do título manifesta-se na percepção de que a história — tanto a do país quanto a pessoal — não segue uma linha reta rumo à redenção. Milton Hatoum explora a ideia de que somos todos figurantes em uma coreografia cujo sentido nos escapa, movidos por forças que mal compreendemos. A conclusão da trilogia não oferece catarses fáceis; em vez disso, entrega uma reflexão profunda sobre a memória como um território de sombras, onde o ato de lembrar é uma forma de resistência, mas também de sofrimento. Ao encerrar o ciclo de Martim, Hatoum entrega um retrato devastador e belo da formação de uma geração que aprendeu, a duras penas, que a vida é o que acontece entre uma esperança e um desencanto.

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