| Edição: 1ª |
| Publicação: 18 de novembro de 2019 |
| Idioma: Português |
| Páginas: 192 |
| Peso: 0.280 kg |
| Dimensões: 13.72 x 21.59 x 1.52 cm |
| Formato: Capa dura |
| ISBN-10: 8552100894 |
| ISBN-13: 9788552100898 |
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No quarto volume de suas “Histórias”, dedicado a Melpômene, a musa da tragédia, Heródoto de Halicarnasso empreende uma incursão audaciosa pelas terras setentrionais, para além do mundo grego conhecido. O livro é, essencialmente, um tratado etnográfico monumental sobre os citas, um povo nômade cujos costumes, crenças e táticas de guerra desafiam a lógica urbana da pólis. O autor, com o olhar atento de um geógrafo e a sensibilidade de um antropólogo, constrói uma narrativa que, embora contida no formato histórico, transpira o lirismo sombrio próprio da musa que o intitula. A Cítia é retratada não apenas como um território geográfico, mas como um espaço vasto, mítico e indiferente, onde a sobrevivência é o único imperativo e a mobilidade é a essência do ser.
A narrativa da expedição de Dario I contra os citas serve como o eixo condutor de uma reflexão mais profunda sobre os limites da expansão imperial. Enquanto o Grande Rei persa busca subjugar os nômades através de uma logística grandiosa e do peso esmagador de seu exército, os citas respondem com o vazio — uma tática de terra arrasada que consome a energia do invasor sem oferecer a possibilidade de um combate decisivo. Heródoto captura a essência do drama humano ao contrastar a arrogância do império, que deseja ordenar o mundo sob o seu domínio, com a resistência daqueles que encontram sua força na ausência de fronteiras, na imensidão da estepe e na recusa absoluta de se submeterem ao sedentarismo da servidão.
Melpômene, tradicionalmente associada ao canto trágico, confere ao livro uma tonalidade elegíaca. Heródoto relata os rituais funerários dos reis citas, as práticas de sacrifício e a brutalidade inerente às disputas de poder com um detalhismo que evoca a efemeridade da vida. O autor não julga esses povos por meio de uma lente etnocêntrica simplória; em vez disso, ele demonstra uma curiosidade intelectual que beira o assombro. Ao documentar a vida nas estepes, ele revela que o terror e a glória são conceitos que se transmutam conforme a cultura, sugerindo que a tragédia da existência humana não reside em uma forma de governo específica, mas na constante busca por identidade em um cosmos habitado por estranhos.
O estilo de Heródoto neste volume atinge um ápice de sofisticação, integrando lendas mitológicas com descrições climáticas e geográficas que parecem antecipar a observação científica. A análise da campanha persa é um estudo sobre a desmesura; o fracasso de Dario não é apenas um revés militar, mas a confirmação de que existem domínios da experiência humana que são imunes à vontade de conquista. A obra convida o leitor a contemplar a fragilidade das pretensões humanas quando confrontadas com o tempo, a distância e a resistência de culturas que, em sua estranheza, conservam uma autonomia que o poder centralizado jamais conseguirá dominar.
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