| Edição: 1ª |
| Publicação: 17 de outubro de 2016 |
| Idioma: Português |
| Páginas: 104 |
| Peso: 0.190 kg |
| Dimensões: 23.2 x 14.6 x 0.6 cm |
| Formato: Capa comum |
| ISBN-10: 8556520286 |
| ISBN-13: 9788556520289 |
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Em Livro sobre nada, Manoel de Barros radicaliza sua proposta de uma poesia fundada no despojamento e na subversão das utilidades práticas. A obra não se propõe a uma ausência de conteúdo, mas sim a uma investigação do “nada” como substância primordial da criação. Para o poeta pantaneiro, o “nada” é o espaço da possibilidade pura, o território onde as palavras, libertas da obrigação de significar ou de informar, podem finalmente ser. Através de uma lírica que flerta com o misticismo do rés-do-chão, Barros constrói um inventário de insignificâncias que, sob seu olhar, adquirem uma estatura monumental e sagrada.
O estilo nesta obra atinge uma maturidade cristalina, onde a economia de meios se alia a uma sofisticação metafórica sem precedentes na literatura lusófona. A linguagem é tratada como matéria orgânica: o poeta “desescreve” para encontrar a essência das coisas, utilizando-se de sintaxes arcaicas cruzadas com neologismos lúdicos. O texto flui como um riacho que carrega gravetos e silêncios, onde a pontuação é frequentemente sacrificada em favor de uma respiração rítmica que mimetiza o tempo da natureza. É uma obra que exige do leitor não a compreensão intelectual, mas a percepção sensorial e a aceitação do absurdo como forma de verdade.
A arquitetura poética de Livro sobre nada sustenta-se sobre o pilar do desaprendizado. Barros propõe que, para ver o mundo em sua plenitude, é necessário despir-se das convenções da lógica adulta e da cultura enciclopédica. Ele celebra o erro, o rascunho e o resto, transformando o “lixo” em luxo literário. A figura do poeta aparece aqui como um “apanhador de desperdícios”, alguém que encontra beleza na ferrugem, na decomposição e naquilo que a sociedade produtivista rotula como inútil. Essa valorização do que sobra é uma forma de resistência ética e estética contra o império do excesso e da funcionalidade.
Ao mergulhar no “nada”, o autor acaba por encontrar o “tudo”: a infância como estado permanente, o elo perdido entre o homem e o bicho, e a capacidade de se maravilhar com o milagre da existência mínima. A obra funciona como um espelho invertido da realidade urbana e tecnológica, convidando o leitor a habitar um tempo geológico e contemplativo. Manoel de Barros prova que a poesia não precisa de grandes temas ou heróis para se sustentar; basta-lhe a transparência de uma gota de orvalho ou o silêncio de uma pedra para que o universo inteiro se revele em sua misteriosa e deslumbrante simplicidade.
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