| Edição: 1ª |
| Publicação: 30 de junho de 2018 |
| Idioma: Português |
| Páginas: 104 |
| Peso: 0.120 kg |
| Dimensões: 19 x 13.6 x 0.8 cm |
| Formato: Capa comum |
| ISBN-10: 8561096128 |
| ISBN-13: 9788561096120 |
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Em “A Velha”, Daniil Kharms sintetiza o paroxismo do teatro do absurdo e a corrosão da lógica racional, criando uma narrativa que se desloca entre o pânico existencial e um humor seco, quase clínico. O protagonista, um escritor mergulhado em um estado de paralisia criativa e física, vê-se subitamente diante da morte inoportuna de uma velha em seu apartamento. A partir deste evento catalisador, a realidade perde sua coesão, transformando-se em um labirinto em que o tempo se dilata e a causalidade se desintegra. Kharms opera com uma técnica que flerta com o surrealismo, mas que se fundamenta na crueza de uma observação desprovida de qualquer sentimentalismo.
A obra não busca explicações para o infortúnio que persegue o protagonista; ela apresenta a insensatez como a única constante possível em um universo desprovido de sentido. A figura da velha, em sua recorrência fantasmagórica e em sua inércia mortuária, torna-se o espelho da finitude humana, uma presença que o escritor tenta, sem sucesso, expelir do seu campo de visão e do seu espaço vital. O estilo é preciso, despojado de ornamentos, quase como um registro notarial de um pesadelo, onde a tragédia e a farsa se confundem em um equilíbrio tênue e perturbador.
Kharms manipula a estrutura do relato com uma destreza quase matemática. As ações dos personagens, muitas vezes desprovidas de uma motivação psicológica clara ou tradicional, parecem emanar de uma inércia cósmica que os empurra para situações cada vez mais limítrofes. A linguagem é direta, despida de floreios poéticos, o que intensifica a sensação de estranhamento. O autor não tenta persuadir o leitor por meio de metáforas, mas sim por meio da acumulação de eventos fortuitos que levam à erosão progressiva da sanidade do protagonista e à dissolução da ordem doméstica.
A obra é um convite à contemplação do vazio que reside no cerne das rotinas mais inócuas. Ao subjugar seu personagem ao peso de uma presença morta, Kharms escava o fosso entre o indivíduo e o mundo, demonstrando que a angústia não advém de grandes eventos épicos, mas da incapacidade de controlar o fluxo da matéria e do tempo. É um texto que desafia a paciência do leitor moderno, exigindo uma rendição às suas regras arbitrárias e ao seu pessimismo cáustico, revelando que a existência é um mecanismo cujas engrenagens estão permanentemente avariadas.
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