| Edição: 1ª |
| Publicação: 1 de fevereiro de 2015 |
| Idioma: Português |
| Páginas: 176 |
| Peso: 0.300 kg |
| Dimensões: 21.2 x 14 x 1.8 cm |
| Formato: Capa dura |
| ISBN-10: 8572839194 |
| ISBN-13: 9788572839198 |
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No primeiro volume de suas “Histórias”, consagrado a Clio, a musa da história, Heródoto de Halicarnasso não apenas lança as bases da investigação historiográfica ocidental, mas estabelece a moldura ética e narrativa para todo o vasto painel que viria a construir. O autor principia sua obra com uma intenção declarada: preservar a memória dos feitos humanos e evitar que as grandes realizações, tanto dos gregos quanto dos bárbaros, sejam corroídas pelo esquecimento. A narrativa abre-se com o conflito entre o Leste e o Oeste, explorando as causas remotas das hostilidades e estabelecendo que, na visão de Heródoto, a história é um desdobramento de ciclos de poder, onde a sorte dos homens é tão inconstante quanto a própria fortuna que os eleva e os precipita ao abismo.
O livro detém-se longamente na ascensão e queda do Império Lídio sob o comando de Creso, cujas riquezas lendárias e excesso de confiança servem como o paradigma perfeito da fragilidade humana. Heródoto utiliza o encontro entre o rei lídio e o sábio ateniense Sólon para introduzir um dos temas axiais da obra: a impossibilidade de considerar qualquer homem verdadeiramente afortunado antes que o fim de seus dias seja conhecido. Essa meditação sobre a natureza do destino humano — entrelaçada com a análise da ascensão irresistível de Ciro, o Grande, e o florescimento do Império Persa — confere à obra uma dimensão trágica, sugerindo que o poder absoluto traz consigo, inevitavelmente, a semente da própria destruição.
O estilo de Clio é uma fusão notável de erudição geográfica, anedótica e analítica. Heródoto percorre as satrapias persas e os territórios da Ásia Menor com a curiosidade de um etnógrafo, coletando tradições, mitos e costumes que conferem humanidade aos inimigos da Grécia. O autor não busca vilanizar o "bárbaro", mas compreender a mecânica de sua expansão, utilizando-o como um espelho para as tensões internas do mundo helênico. O relato da ascensão de Ciro, construído com elementos de lenda e análise política, revela um historiador que compreende que o mito, na narrativa das origens, é tão instrutivo quanto a crônica dos fatos, pois ele revela os anseios e as crenças que movem a vontade coletiva.
A estrutura narrativa do livro, que transita habilmente entre a história das nações e os destinos individuais, antecipa a compreensão de que a história é, essencialmente, o estudo da mudança. Heródoto sugere que a mudança não é um processo caótico, mas uma trajetória marcada pela retribuição: os grandes impérios que surgem da desmedida acabam por encontrar os limites de sua própria força nas leis do cosmos. Ao encerrar o primeiro volume, o autor já desenhou o horizonte de conflito que permeará as próximas décadas, apresentando a Grécia não como um observador passivo, mas como um ator que, em breve, terá de confrontar a vastidão do oriente em uma luta que definirá a sua própria identidade política e espiritual.
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