| Edição: 1ª |
| Publicação: 1 de fevereiro de 2016 |
| Idioma: Português |
| Páginas: 160 |
| Peso: 0.800 kg |
| Dimensões: 21.2 x 13.6 x 1.6 cm |
| Formato: Capa dura |
| ISBN-10: 857283933X |
| ISBN-13: 9788572839334 |
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No segundo volume de suas “Histórias”, dedicado a Euterpe, a musa da música lírica, Heródoto de Halicarnasso dedica-se a uma exploração quase obsessiva e maravilhada da civilização egípcia. Longe de limitar-se a uma crônica de eventos militares, este livro funciona como uma monografia sobre uma terra que, aos olhos do historiador, representa a própria antítese do mundo grego em sua percepção do tempo, da religião e da natureza. O título da musa ecoa nas descrições cadenciadas do autor sobre as cheias do Nilo, um fenômeno vital que ele descreve com a atenção de um cientista e a reverência de um poeta, reconhecendo no rio a artéria principal que confere não apenas fertilidade ao solo, mas a própria estabilidade que permite ao Egito manter suas tradições imutáveis por milênios.
A narrativa mergulha na alteridade absoluta do Egito, onde os costumes parecem inverter a norma helênica: os homens tecem em casa enquanto as mulheres realizam o comércio, os deuses possuem feições zoomórficas e a escrita não se submete à simplicidade fonética. Heródoto não busca o julgamento moral, mas a compreensão dessa diversidade, exercendo uma curiosidade intelectual que define a sua metodologia. Ele percorre as cidades, os templos e as práticas de embalsamamento, tratando o Egito como o repositório da memória mais antiga da humanidade, um lugar onde a história não é apenas um fluxo de ações, mas uma permanência que desafia a erosão do esquecimento.
Euterpe inspira em Heródoto uma prosa de fôlego descritivo, onde a construção das pirâmides e a monumentalidade dos templos servem como evidências palpáveis da capacidade humana de impor a sua vontade à resistência da matéria. O historiador, embora cauteloso diante das narrativas sacerdotais que frequentemente encontram ecos nas tradições locais, dedica-se a registrar as linhagens reais e as glórias passadas com um zelo que beira o sagrado. A investigação sobre a origem dos deuses e a relação entre o culto egípcio e a mitologia grega é um dos pontos altos da erudição da obra, revelando a audácia do autor ao propor uma conexão teológica que unifica, em um vasto sistema de analogias, as tradições mediterrâneas.
Abaixo da superfície das descrições antropológicas, o segundo livro é uma meditação sobre a finitude e a grandiosidade. Heródoto questiona as causas por trás da longevidade egípcia, ponderando como a ordem social e a devoção religiosa permitiram que um povo sobrevivesse enquanto outros impérios ascendiam e caíam no esquecimento. Ao contrastar a efemeridade das construções humanas com a persistência do fluxo do rio Nilo, o autor articula a sua visão de que a história é um diálogo constante entre o ambiente e a cultura. O Egito é, para o historiador, o mestre que ensina que o poder, por maior que seja, deve harmonizar-se com as leis da natureza para garantir a continuidade da civilização.
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