| Edição: 1ª |
| Publicação: 30 de agosto de 2017 |
| Idioma: Português |
| Páginas: 216 |
| Peso: 0.250 kg |
| Dimensões: 20.6 x 13.8 x 1 cm |
| Formato: Capa comum |
| ISBN-10: 8573266759 |
| ISBN-13: 9788573266757 |
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Comprar LivroConsiderada uma das obras mais herméticas e desafiadoras da Antiguidade helenística, a Alexandra de Lícofron de Cálcis afasta-se da clareza épica tradicional para mergulhar em uma estética da obscuridade deliberada. O poema, um longo monólogo de 1474 versos iâmbicos, é proferido por um guardião que relata a Príamo as profecias de sua filha Cassandra — aqui chamada pelo nome cultual de Alexandra. Diferente da Cassandra de Eurípides, que lamenta em meio às cinzas de Troia, a Alexandra de Lícofron é uma fonte jorrante de vaticínios que atravessam séculos, narrando não apenas a queda da cidade, mas a subsequente diáspora dos heróis gregos e troianos, culminando em uma visão da ascensão de Roma. A linguagem é um exercício de erudição, repleta de metáforas zoológicas, neologismos e referências mitológicas raras que transformam a leitura em uma decifração quase arqueológica.
O estilo de Lícofron caracteriza-se pela substituição sistemática de nomes próprios por epítetos enigmáticos: heróis tornam-se leões, javalis ou lobos, e cidades são descritas por suas fundações míticas mais remotas. Essa "poética do escuro" reflete a maldição de Apolo sobre a profetisa: o dom de prever o futuro acompanhado da condenação de nunca ser compreendida. A tradução de Trajano Vieira enfrenta o desafio hercúleo de transpor esse emaranhado de alusões, mantendo o vigor de uma dicção que é, ao mesmo tempo, arcaizante e experimental. O poema funciona como um inventário exaustivo do imaginário mediterrâneo, onde a história e o mito se fundem sob a ótica de uma mente que vê o tempo como um único bloco de eventos trágicos e recorrentes.
A obra expande os limites do ciclo troiano ao detalhar as fundações de cidades na Itália e na Sicília pelos fugitivos da guerra. Lícofron estabelece uma ponte profética entre o oriente grego e o ocidente nascente, sugerindo que a destruição de Troia é o prelúdio necessário para uma nova ordem mundial. Alexandra vê além das chamas de sua casa, enxergando nos descendentes de Eneias os futuros senhores da terra, conferindo ao poema uma dimensão política que buscava dialogar com a realidade do período alexandrino.
Longe de ser um defeito, a obscuridade de Alexandra é sua razão de ser. Ela mimetiza o estado de transe e o isolamento de quem porta uma verdade insuportável para os ouvidos mortais. A riqueza vocabular e as construções sintáticas tortuosas servem para proteger o mistério profético, exigindo do leitor uma postura de iniciado que deve, junto com o tradutor, reconstruir o sentido a partir dos fragmentos de uma memória divina e terrível.