O meu quintal é maior do que o mundo - Barros, Manoel de

Edição:
Publicação: 24 de fevereiro de 2015
Idioma: Português
Páginas: 168
Peso: 0.220 kg
Dimensões: 23.2 x 14.6 x 1.4 cm
Formato: Capa comum
ISBN-10: 8579623642
ISBN-13: 9788579623646

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O meu quintal é maior do que o mundo - Manoel de Barros

A ontologia do ínfimo e a descolonização do olhar

Nesta antologia que abarca a trajetória lírica de Manoel de Barros, a poesia deixa de ser um mero exercício de rimas para tornar-se uma cosmogonia das insignificâncias. O título, de extração nitidamente bernardiana, sintetiza a filosofia do autor: o "quintal" não é um limite geográfico, mas um estado de espírito onde a percepção subjetiva expande as dimensões do real. Barros opera uma revolução copernicana na literatura brasileira ao deslocar o centro do universo das grandes narrativas e dos monumentos para o chão, para o lodo, para o "traste" e para os seres que habitam o rés-do-chão da existência, como os caracóis e as formigas.

O estilo manoelino é caracterizado por uma linguagem que ele próprio denomina "idioleta manoelês". É uma prosa poética que subverte a gramática normativa em favor de uma "gramática das águas" e das coisas sem serventia. O autor utiliza o neologismo e a sinestesia para conferir dignidade ao inútil, transformando o substantivo em verbo e o silêncio em imagem plástica. Sua escrita é depurada, embora pareça brotar de uma espontaneidade primitiva; há um rigor erudito por trás de sua aparente ingenuidade, uma erudição que escolhe o desaprendizado como método de aproximação com a natureza.

A fenomenologia do detalhe e a santificação do cotidiano

A estrutura da obra permite acompanhar a evolução de um pensamento que se recusa a envelhecer, mantendo a curiosidade da infância como ferramenta de investigação metafísica. Para Manoel de Barros, a poesia é o "lugar das origens", onde as palavras ainda não foram domesticadas pela utilidade social. O "pantanal" que emerge de seus versos não é o bioma geográfico explorado pelo turismo, mas um território mítico onde o homem se funde com o bicho e com a planta através de uma simbiose linguística. Ele propõe uma "teologia do lixo", onde o que sobra da civilização é reintegrado à terra e transfigurado pela beleza do abandono.

A leitura desta antologia revela um poeta que dialoga com o silêncio e com o tempo geológico. Suas imagens — pedras que criam musgo, o orvalho que "amanhece" as flores, a transparência dos peixes — servem como um antídoto à aceleração da modernidade e à futilidade do consumo. Barros ensina que a liberdade máxima reside na capacidade de se maravilhar com o que é pequeno, pois é no microscópico que reside a infinitude. Ao final da leitura, compreende-se que o quintal do poeta é maior do que o mundo porque nele a imaginação não conhece fronteiras e a linguagem é devolvida ao seu estado de pureza inaugural.

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