| Edição: 1ª |
| Publicação: 13 de junho de 2023 |
| Idioma: Português |
| Páginas: 256 |
| Peso: 0.260 kg |
| Dimensões: 13 x 1.3 x 20 cm |
| Formato: Capa comum |
| ISBN-10: 8582851650 |
| ISBN-13: 9788582851654 |
Quer comprar este livro?
Comprar LivroPublicado em 1927, Passeio ao farol é uma das realizações mais sofisticadas do modernismo britânico, onde Virginia Woolf subverte a estrutura narrativa tradicional em favor de uma exploração profunda da consciência humana. A obra, dividida em três partes distintas, organiza-se em torno da família Ramsay e de seus convidados em sua residência de verão nas Ilhas Hébridas. A erudição do texto manifesta-se no uso magistral do fluxo de consciência, técnica que permite à autora capturar a volatilidade dos pensamentos, as impressões sensoriais e as complexas teias de desejo e ressentimento que unem os personagens. Woolf não busca narrar eventos externos, mas sim a "realidade" que transcorre no âmago do espírito, onde um simples jantar ou o desejo de uma criança de visitar um farol tornam-se eventos de imensa magnitude ontológica.
A figura central de Mrs. Ramsay atua como a força centrípeta da primeira parte, "A janela", exercendo uma espécie de alquimia social que harmoniza as arestas intelectuais e emocionais daqueles ao seu redor. Em contraste, Mr. Ramsay representa a austeridade da lógica e o temor da insignificância histórica. A sobriedade da prosa de Woolf brilha na descrição das tensões domésticas, revelando como a subjetividade de cada indivíduo cria mundos isolados que apenas ocasionalmente se tocam. A autora demonstra que a verdade de uma vida não se encontra na cronologia dos fatos, mas na sucessão de momentos de visão e na cadência efêmera das percepções.
Na seção intermediária, "O tempo passa", Woolf opera uma audaciosa mudança de perspectiva, deslocando o foco dos personagens humanos para a própria passagem do tempo e a decadência da matéria. A casa, antes vibrante de diálogos e afetos, é entregue ao abandono e à erosão dos elementos, enquanto eventos catastróficos, como a Primeira Guerra Mundial e a morte de membros da família, são relatados de forma lacônica, quase incidental. Esta técnica ressalta a indiferença da natureza e a fragilidade da presença humana no cosmos. A qualidade editorial desta transição é notável pela melancolia lírica que impregna a descrição do pó, das sombras e do silêncio que tomam conta dos aposentos.
A parte final, "O farol", narra o retorno dos sobreviventes à ilha anos depois e a conclusão da viagem há muito adiada. Aqui, a personagem Lily Briscoe assume o protagonismo intelectual ao tentar concluir uma pintura iniciada na primeira parte. A arte surge como a única força capaz de ordenar o caos da experiência e de conferir permanência ao que é intrinsecamente fugaz. A conclusão do quadro de Lily e a chegada física ao farol simbolizam a síntese entre o esforço criativo e a aceitação da realidade. Woolf encerra a obra com uma meditação sobre a completude, sugerindo que, embora a vida seja um fluxo incessante de perdas, a visão artística pode, ainda que por um instante, capturar a essência do ser.