| Edição: 2ª |
| Publicação: 24 de setembro de 2021 |
| Idioma: Português |
| Páginas: 97 |
| Peso: 0.190 kg |
| Dimensões: 14 x 1 x 20 cm |
| Formato: Capa comum |
| ISBN-10: 8592649862 |
| ISBN-13: 9788592649869 |
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Comprar LivroNesta obra de estreia, o poeta vietnamita-americano Ocean Vuong articula uma narrativa lírica que funciona como uma arqueologia da sobrevivência e da memória. O texto organiza-se em torno da experiência do desterro e das sequelas deixadas pela Guerra do Vietnã na estrutura familiar do autor. Vuong utiliza a linguagem não como um adorno, mas como um campo de força onde a violência da história e a delicadeza do desejo se chocam. A narrativa analisa a relação entre o filho e a mãe, uma mulher marcada pelo analfabetismo e pelo trauma da guerra, explorando como a comunicação ocorre nos espaços de silêncio e nas lacunas da tradução cultural. A escrita detém-se na materialidade do corpo, o corpo que sofre, o corpo que deseja e o corpo que se torna o arquivo vivo de uma linhagem interrompida.
O texto afasta-se da linearidade para habitar um espaço de fragmentos, onde a história pessoal se funde à mitologia e à brutalidade política. Vuong investiga a natureza da masculinidade e da sexualidade em um contexto de marginalidade, descrevendo o amor entre homens como um ato de resistência e, simultaneamente, de vulnerabilidade. A reflexão estende-se à questão da língua: o inglês, para o autor, é um território conquistado, uma ferramenta que ele utiliza para dar nome ao que sua herança vietnamita muitas vezes foi forçada a esconder. A escrita é precisa, buscando a exatidão da imagem para transmitir a crueza da experiência sem recorrer ao sentimentalismo. Cada poema funciona como uma cápsula de tempo que tenta preservar a dignidade de uma existência sitiada pela precariedade e pelo preconceito.
A obra aborda a persistência do passado no presente, sugerindo que a guerra não termina com o cessar-fogo, mas continua a ecoar na psique dos sobreviventes e de seus descendentes. Vuong detalha a relação com a avó e o peso das histórias contadas entre o fogo e o medo, transformando o relato familiar em uma meditação sobre a impermanência. A análise foca na ideia do "céu noturno" como um espaço de beleza que, no entanto, carrega a memória das balas e das chamas. A autora utiliza metáforas orgânicas e industriais para descrever a paisagem americana e as cicatrizes deixadas no solo e na alma. A reflexão sobre a ausência do pai atravessa o livro, manifestando-se como uma busca por uma origem que é sempre fuga e fantasmagoria.
A linguagem de Ocean Vuong é moldada pela urgência da fala, tratando o poema como um fôlego necessário diante da asfixia social. O texto analisa a solidão do imigrante e a busca por um pertencimento que nunca é pleno, situando-se na fronteira entre dois mundos. A escrita explora a beleza que emerge da destruição, sugerindo que a arte é a forma de reintegrar os fragmentos de uma identidade dispersa. A análise do desejo aparece como um contraponto à violência histórica, um espaço onde o corpo recupera sua autonomia e sua capacidade de sentir. Ao final, a obra firma-se como um testemunho da resiliência humana, provando que a memória, embora dolorosa, é o único alicerce sobre o qual se pode construir uma voz autêntica no exílio.