| Edição: 1ª |
| Publicação: 16 de setembro de 2024 |
| Idioma: Português |
| Páginas: 420 |
| Peso: 0.620 kg |
| Dimensões: 16 x 2.3 x 23 cm |
| Formato: Capa comum |
| ISBN-10: 8594090587 |
| ISBN-13: 9788594090584 |
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Comprar LivroNeste segundo volume de sua análise monumental, Jacob Burckhardt mergulha na esfera do sagrado, explorando como a religião grega, em sua ausência de dogmas escritos e de uma classe sacerdotal organizada, serviu como o cimento primordial da cultura helénica. O autor demonstra que, para o grego, o divino não se manifestava em mandamentos morais ou em promessas de salvação num além-mundo, mas na exaltação da vida e das forças naturais. Burckhardt argumenta que os deuses do Olimpo eram projeções da própria humanidade elevada ao seu grau máximo de beleza e poder, funcionando como arquétipos que conferiam sentido e dignidade às paixões, sofrimentos e conquistas dos mortais.
A estratégia narrativa do autor foca na profunda integração entre o culto e a pólis. Burckhardt descreve como o festival religioso, o sacrifício e o oráculo não eram atos meramente privados, mas funções políticas e estéticas que reafirmavam a identidade coletiva da cidade-estado. A religiosidade grega é apresentada como uma "religião do olhar", onde a beleza da estátua e a perfeição do templo eram formas de adoração tão fundamentais quanto a prece. O autor destaca que essa liberdade teológica permitiu um desenvolvimento intelectual único: ao não serem constrangidos por uma ortodoxia rígida, os gregos puderam questionar a natureza do cosmos e da alma, lançando as bases para a transição do mito ao logos.
Burckhardt dedica uma atenção detalhada ao papel dos oráculos, especialmente o de Delfos, como centros de influência política e moral no mundo antigo. Ele analisa como a consulta à divindade funcionava como um mecanismo de regulação das crises sociais e um guia para a colonização e a guerra. No entanto, o historiador mantém o seu característico pessimismo realista ao observar que, por trás da fachada festiva e dos rituais, residia uma consciência aguda da transitoriedade da vida. A religião grega, segundo o autor, era uma tentativa de negociar com um destino (Moira) implacável e caprichoso, onde nem mesmo os deuses eram totalmente soberanos.
A obra explora também a evolução dos mistérios e o surgimento de cultos mais introspectivos, que sugeriam uma busca por uma ligação mais pessoal com o divino. Burckhardt encerra o volume demonstrando que a cultura grega era indissociável das suas práticas cúlticas; a arte, a poesia e o teatro eram, na sua essência, atos religiosos. Esta análise revela que a serenidade clássica era o resultado de uma luta constante para harmonizar a irracionalidade das forças divinas com a necessidade humana de ordem e proporção, provando que o sagrado era a atmosfera em que toda a criatividade helénica respirava.
"A religião grega tem a capacidade de ser um tópico de pesquisa vasto e inesgotável, e sem dúvida permanecerá assim por muito tempo. Ela não é só a religião de um dos povos mais importantes de todos os tempos, mas também o politeísmo mais notável e tardio da história antiga. Por isso não é possível abordá-lo a fundo sem considerar suas ligações e divergências em relação aos outros politeísmos do mundo antigo, como os dos germânicos, eslavos e celtas.Aqui, pretendemos nos limitar somente a um lado do fenômeno a questão de o que essa religião e seus deuses eram para os gregos da época histórica. Sua origem e sua procedência nos ocuparão apenas brevemente e nossas próprias indicações não ultrapassarão um ponto de vista diletante". - Jacob Burckhardt