Este é outro livro da coleção: “livros que leio como exercício”, ou “expandindo os horizontes da leitura”, ou algo do tipo. Isso significa que a leitura é motivada por questões técnicas. Construção do texto, linguagem utilizada, recursos estilísticos, vocabulário, etc. Tudo isso me interessa, mas não propriamente a história em si, ou o gênero ao qual ela pertence, digamos assim.
Esse foi outro livro que fiquei postergando a análise até os detalhes da história se diluírem gradualmente na minha memória. Como consequência óbvia, a tarefa ficou mais árdua do que deveria ser, obrigando-me a consultar o texto para rever detalhes do enredo e outros aspectos que gostaria de avaliar.
Um encontro fortuito
Tudo começa com um encontro aparentemente banal e aleatório entre duas mulheres. Evento que entrelaçaria a trajetória de ambas, tornando-as cúmplices de suas próprias narrativas, carregadas de dor, perda e um profundo silêncio perturbador.
De um lado, Biá, uma psicanalista aposentada que habita o labirinto de suas próprias memórias fragmentadas; do outro, Olívia, uma jovem jornalista que carrega o peso de uma fatalidade irrecuperável.
Até certo ponto, a história é cuidadosamente construída, com uma verossimilhança que em nada destoa do “mundo real”. E isso inclui o comportamento errático, dissonante e fugidio de Biá, que vive uma pseudologia fantástica motivada por um trauma pessoal. A vida para ela é um jogo entre memória e invenção. Ela se autodenomina Biá, mas seu nome verdadeiro é Emma. Ela chama a filha de outro nome, cria um neto que nunca existiu e sustenta narrativas ficcionais que servem de suporte para o equilíbrio de seu psiquismo fragmentário.
A mentira é um refúgio, não um mero esquecimento assintomático. Biá altera os fatos de sua biografia na vã tentativa de criar uma camada de proteção entre quem ela é e o que aconteceu com sua vida. É uma história de alguém que perdeu o significado, o rumo e o propósito da vida.

Carla Madeira, a segunda escritora mais lida no Brasil em 2021.
A sobreposição de nomes
Para quem leu o livro, sabe que Biá inventou um nome para a filha. Nos encontros com Olívia, ela disse que sua filha se chamava Dolores. Nome que carrega uma carga emocional ligada a pesares e lamentações. Associado ao sofrimento, mas também à resiliência e à força diante das adversidades. Olívia percebe a verdade gradualmente. Na banca do Rodolfo, ela descobre que o nome verdadeiro da filha de Biá é Teresa.
A invenção do nome funciona como um mecanismo de proteção emocional. Biá, na sua confusão mental, utiliza o recurso para se proteger da dor que não consegue nomear diretamente (Teresa). O artifício permite que elas falem a mesma língua, embora estejam falando de pessoas e tragédias diferentes. O falso nome cria um território em comum, onde ambas as solidões se encontram.
Do outro lado, Olívia tenta assimilar a perda de uma amiga da infância. Olívia e Rita eram inseparáveis, uma amizade que transcendia qualquer obstáculo, rompida de maneira abrupta, quando Rita interrompe a relação sem oferecer nenhuma explicação. Esse duro golpe ocorreu quando elas eram adolescentes, e Olívia cresceu sem compreender a razão do afastamento da amiga. Os caminhos divergiram e elas cresceram longe uma da outra. Anos depois, Olívia é procurada por Rita e elas marcam um encontro, um reencontro. É evidente a expectativa de Olívia, que finalmente espera escutar uma explicação plausível para tantos anos de silêncio. Mas o que está prestes a acontecer é uma tragédia absurda. Uma fatalidade que provavelmente só encontra respaldo na ficção. Olívia permanece presa. Na dúvida, na incompreensão e na dor da perda.
Mas Biá conhece a história de Olívia. Após diversos encontros que fortaleceram os laços de amizade e cumplicidade entre as duas, ela percebe algo que só alguém que está do lado de fora poderia perceber. Talvez seja sua sensibilidade, seu treinamento psicanalítico e a profunda empatia que tem pela jovem amiga. Ela sabe o que aconteceu e dá indícios velados, rascunhados em um pedaço de papel. Um mísero bilhete sugestivo. Então Olívia confronta a mãe e descobre que algo aconteceu entre Laura (mãe de Olívia) e Eduardo (pai de Rita). É uma revelação. Todas as partes se conectam como um quebra-cabeça, em que a imagem que se forma só pode ser compreendida após o encaixe da última peça.
Até esse ponto, o livro revela-se como uma ficção convincente, bem construída, mesmo considerando as características absurdas, quase fantasiosas, que envolvem a morte de Rita. No entanto, no que se refere à vida de Biá, a separação e o abandono de seu ex-marido, não me parecem reais. Reservo-me aqui o direito de expressar a estranheza que o desfecho da segunda parte da história me causou.
Um estranho abandono
Teo, ex-marido de Biá, abandona a família (esposa e filha) porque não suporta o peso da vida familiar e das responsabilidades da vida. Ele busca uma liberdade individualista, mas sua decisão é marcada pela indiferença ao sofrimento que causa. Ele o faz porque a sua presença se torna o epicentro de uma destruição moral insuportável. A “mordida” de Teodoro é o incesto. Esta é a justificativa que utiliza para o afastamento. Ele não abandona a família por ódio ou por uma traição comum, mas por um conflito interno devastador. Isso explica muita coisa, explica o desequilíbrio psíquico de Biá, mas, sinceramente, não compreendo a atitude dele. Não me parece real. É artificial e desconectada da realidade ou, no mínimo, profundamente egoísta. A justificativa para o abandono é absurda e inaceitável. Essa é minha única ressalva. Se o comportamento de Teodoro pode ser encarado como uma possibilidade real (improvável na minha opinião), então existe um paradoxo discrepante entre os inúmeros relatos de uma família feliz e o súbito e permanente abandono por parte de Teodoro. É isso a que me referia quando disse: “Até certo ponto a história é cuidadosamente construída…” Porque a ausência dessa figura masculina e paternal, esse marido que era descrito com tanto afeto, não me convence.
Um adendo final
Emma era uma ávida leitora, pelo que tudo indica. Sua fala está repleta de trechos literários detalhados no posfácio, intitulado “Citações de Biá”. É óbvio que isso faz parte da construção da personagem, deliberadamente definida pela autora. O livro é uma mistura da prosa poética de Biá com a narrativa crua de Olívia. É um texto bem escrito, não há dúvida sobre isso, mas essa ode aos clássicos, que exala desde a primeira página, não me agrada. Não sei por que esse culto insiste em prevalecer como premissa digna de reconhecimento. É uma fórmula enfadonha. Tudo bem, a personagem é assim, mas construída intencionalmente dessa forma.