A reunião foi marcada às pressas. Não havia necessidade de um novo encontro, mas sucessivas interrupções nos planos originais obrigaram o mago a convocar os membros do comitê.
As bruxas chegaram primeiro. A mesa estava vazia quando iniciaram o ritual. O líquido viscoso borbulhava nos caldeirões aquecidos pelo fogo sempre vivo. Elas preencheram os frascos de vidro e prepararam o local para a cerimônia. Astropunk e Mahakali surgiram logo depois, caracterizados em perfeito disfarce, com típica indumentária mundana. Músicos da ordem do caos. Figuras anacrônicas representando a dissonância atávica no planeta Terra. Atrás deles, um séquito fantasmagórico, indeciso e relutante. Espíritos desencarnados, suicidas, viciados, artistas alucinados, escritores fracassados. Fantasmas aprisionados nos labirintos de suas próprias realidades fragmentárias.
O necromante surgiu em uma esfera sem luz, tenebrosa e enigmática. Da ponta de seus dedos desprendia-se uma fumaça negra que se espalhava pelo ar como vermes etéreos, parasitas energéticos de estranha compleição. O mago foi o último. O semblante carregado, a expressão rígida e inerte.

A reunião iniciou imediatamente. Entre os membros reunidos não havia consenso, apenas interesses em comum. A orquestração de inesperadas ressonâncias invisíveis era um desafio para o grupo. Antigos portais deixaram de existir e as vibrações que alteravam o fluxo do tempo, transformando a linearidade histórica em um novelo maleável, não surtiam mais efeito. A discrepância na interpretação das mudanças provocava conflito e desestruturava o comitê.
O mago consultou a esfera de cristal. Contemplou imagens duvidosas na névoa esvoaçante. Futuros incertos e imprevisíveis como nunca. Seus olhos flamejavam uma impaciência crescente.
A presença na terra estava ameaçada por grupos rivais. Reptilianos se alimentavam do medo, da dor e sofrimento. A agenda que conduziam era incisiva e direta. Mas não eram os únicos. Diferentes raças conduziam experimentos e exploravam recursos. A terra era um território em disputa. Uma guerra oculta e invisível.
O exdrúxulo comitê agia de forma independente, trabalhando incógnito na surdina, ceifando almas, alterando destinos, absorvendo energia vital. O plano era simples: os meta-morfos estabeleciam contato físico no campo tridimensional, hipnotizando com distorção e dissonância. O necromante trabalhava no plano sutil. A influência de suas ações penetrava na mente das pessoas de maneira quase imperceptível. As bruxas selavam pactos e o mago contabilizava os ganhos. Era uma execução elaborada e bem-planejada, mas os portais estavam se fechando.
Durante a reunião houve um conflito irredutível. O mago abandonou o grupo. Os meta-morfos foram os próximos, acompanhados pelo necromante. O comitê se desfez, cada qual seguindo seu próprio rumo. Por último, as bruxas se entreolharam sozinhas naquele campo etérico, limbo existencial de sonhos perdidos. Segundos depois desapareceram em uma nuvem de gases sulfurosos.
A gênese da colaboração híbrida
A Oficina de Quimeras é um espaço de experimentação estética onde o algoritmo encontra a sensibilidade da lapidação humana. Aqui, o processo criativo subverte a lógica tradicional: a inteligência artificial atua como o motor primário, gerando imagens e esboços narrativos que servem de matéria-prima. O texto então é lapidado pela prosa artesanal do autor, que edita, reescreve trechos e mescla o conteúdo com algo que apenas o discernimento humano possui.
A figura mitológica da Quimera é uma criatura formada de partes distintas que, juntas, formam um único ser. A narrativa híbrida nasce da interseção entre o autor e a máquina. Mais do que um repositório de contos, esta categoria funciona como uma oficina de experimentação literária. Um laboratório de criação de microcontos.