Morte súbita

A hipocrisia de uma pequena cidade inglesa

Publicado por G. T. Tessmer em 13 de janeiro de 2026

The Casual Vacancy

Foi um ato impulsivo, pegar o livro da estante e decidir que iria iniciar a leitura. A lombada chamativa, de um amarelo intenso, se destacava entre outros títulos da prateleira. Mas não foi a cor, nem o título da obra que definiu a minha escolha. Esse livro orbitava o núcleo seletivo de minhas opções, gravitando em curvas sinuosas, convergindo gradualmente para o foco da minha atenção. Havia um motivo óbvio para isso. Um motivo técnico, digamos assim: ler J. K. Rowling para entender como ela escreve e desenvolve a narrativa ficcional de seus romances.

Definitivamente, eu não estava disposto a ler a saga Harry Potter apenas para conhecer a prosa da autora. Há diversos títulos infantojuvenis que gostei de ler. A viagem maravilhosa de Nils Holgersson, de Selma Lagerlof, por exemplo. É um livro que me transportou, literalmente, para um mundo de fantasia. Mas Harry Potter não! Não sei explicar o motivo. Acho que a magia (o estilo da magia) não me convence, ou talvez seja a popularidade excessiva que a série alcançou. Nunca me senti atraído pela saga. Tenho uma vaga lembrança de um ou outro filme, que assisti entediado apenas para passar o tempo. Não era escolha programática, eu apenas trocava de canal e acabava parando ali, no meio de um filme em andamento. Talvez tenha sido isso. A má impressão que as adaptações me causaram. Obviamente que a versão cinematográfica nunca será igual ao livro, mesmo assim, nunca me atraí por Harry Potter. Então, para matar minha curiosidade literária, “Morte súbita” era uma opção conveniente. Um atalho para me familiarizar com a prosa de Rowling.

A vista panorâmica de Pagford 

A primeira impressão que tive ao iniciar a leitura foi marcada pelo ritmo acelerado no qual os personagens são apresentados. Pagford e seus moradores surgem nas primeiras páginas de modo tão rápido que chega a causar desconforto. Um após o outro, os habitantes da pequena cidade interiorana são inseridos em um contexto complexo de inter-relações sociais. É um pouco indigesto no começo. O leitor precisa estar atento. Nomes são apresentados em ritmo vertiginoso e um enredo rico e elaborado toma forma gradualmente. Após se familiarizar com a cadência polifônica, tudo começa a fazer sentido. O fio condutor da história surge com graça e naturalidade e o romance coral (as múltiplas vozes interconectadas) ganha corpo, volume e adquire proporções surpreendentes. Não é de se admirar porque Harry Potter fez tanto sucesso. Rowling tem um talento natural para criar epopeias.

Relações cruzadas e interações sociais

O livro começa com a morte de Barry FairBrother e a inesperada vaga que surge no conselho comunitário. Esse é o pivô central da história, a espinha dorsal da narrativa, onde todas as tramas secundárias são construídas. A corrida para ocupar o lugar de Barry expõem ambições, estratégias de difamação e polariza interações sociais. As famílias participam de intrigas e atuam ativamente em campanhas.

Pagford é dividida em núcleos familiares. Os ideais sociais e valores defendidos por Barry são compartilhados com Parminder Jawanda (que integra o conselho comunitário). Após a morte de Barry, ficou evidente a oposição protagonizada pela família Mollison. Howard Mollison, a esposa Shirley, Miles, filho do casal e Samantha, a nora, formam o principal grupo de oposição. A família representa a ala conservadora que é contra a manutenção de Bellchapel e The Fields. The Fields é um conjunto habitacional periférico, marcado por pobreza e problemas sociais. Bellchapel é um centro de reabilitação para dependentes químicos. Para os Mollison, o espaço é uma vergonha, uma mancha para a cidade, mas para outros moradores é um lugar de acolhimento e recuperação. A trama gera em torno de conflitos dessa natureza.

Mas a história é muito mais complexa que isso. Temos que acrescentar ao monumental enredo do romance a família Wall. Colin Wall (apelidado pelo próprio filho de Cuby ou pombinho), Tessa Wall e o filho Stuart (Fat, ou bola, na versão em português). Também precisamos acrescentar os Price. Simon Price e Ruth Price e o filho do casal, Andrew (Arf). Andrew e Stuart são amigos inseparáveis (até certo ponto, pelo menos).

A narrativa não estará completa antes de acrescentar os Weedon: Terri, Krystal e Robbie, o núcleo familiar mais degradado e sofrido de Pagford. Acrescentamos ainda Kay, a assistente social e sua filha Gaia e o advogado Gavin. Tenho certeza que não mencionei todos os nomes. Há personagens com protagonismo de menor relevância (como as filha de Mary e Barry ou Vikram, marido de Parminder, por exemplo), mas não sei se consigo enumerá-los aqui. Provavelmente não. De qualquer forma, as famílias supramencionadas formam o núcleo principal do enredo.

J. K. Rowling em uma entrevista para a revista Urbanette em novembro de 2013. Divulgação de “The Casual Vacancy” e a transição da literatura infantojuvenil para a ficção adulta.

Apenas um exercício de leitura

Minha intenção não é destrinchar os detalhes da narrativa, as intrigas, conflitos, anseios e desejos dos personagens. Isso seria uma análise extremamente tediosa. Mas é impossível não lembrar de cenas como o bullying que Fat Stuart cometia contra a pequena e melancólica Sukhvinder, filha dos Jawanda. Ou o casamento falido de Miles e Samantha. A violência de Simon Price contra a esposa e os filhos. Coisas do tipo não se esquece facilmente. Também não dá para esquecer a vida miserável de Terri Weedon, marcada pelas drogas e prostituição. Os doloridos conflitos entre ela e sua filha Krystal, que fazia tudo para dar uma vida decente para seu irmãozinho Robbie. Não vou relatar a tragédia que se abateu sobre essa família. A simples menção dos fatos pode ser considerado spoiler. Como disse, não pretendo avaliar a história em si. Meu interesse é técnico. Está relacionado à construção do texto, as características do narrador e as sutilizas da linguagem.

Não há como negar que a história é conduzida com habilidade e maestria. Rowling dá vida aos personagens e o livro existe por si só, como algo que sempre existiu. É um retrato, uma fotografia, um recorte da realidade. Os personagens não possuem apenas atributos físicos, eles vivem através das páginas. Expressam desejos e vontades, se debatem em conflitos internos. E é justamente na interação entre esses múltiplos personagens (cheios de vida própria) que a verossimilhança com o mundo real se torna evidente. A profundidade psicológica dos personagens estabelece coesão, coerência e integridade ao texto.

A vida em Pagford é marcada por intrigas, disputas, fofocas, conflitos. É marcada por conflitos de classe e hipocrisia comunitária. O olhar da autora evidencia o lado sombrio das pessoas. Suas dores, frustrações e desafetos. Isso reforça o realismo cru e brutal da obra.

SQL Injection e outras questões 

 Quero acrescentar um breve adendo. Não é que seja exatamente uma impossibilidade real, mas me parece um pouco forçado, quando três adolescentes, em situações diferentes, conseguem postar no site do conselho usando códigos de injeção SQL. E detalhe, os três utilizam o nome do fantasma de Barry, como usuário. Tecnicamente é possível? Talvez, sim, mas improvável.

Outro ponto, de menor relevância: Sukhvinder cortou a perna na carcaça do computador que Simon Price havia desovado no rio. É uma baita coincidência, sejamos sinceros, mas serve como artimanha de conexão. O leitor se depara com determinado evento e páginas e páginas depois, aquilo surge novamente. Esse tipo de artifício amarra a história porque estabelece vínculos criando coerência narrativa.

Considerações finais

Não tenho mais nada a acrescentar. Foi uma boa experiência de leitura, só isso. Matei minha curiosidade. Observei detalhes e características de um romance polifônico. Não um romance qualquer, mas escrito por J. K. Rowling. Essa era minha intenção. Fora isso, há alguns efeitos residuais, que devem desaparecer com o tempo. Fica no ar uma certa melancolia sempre que lembro de Krystal e do pequeno Robbie. Vai passar.